Dados da pesquisa “Radar da Inclusão 2025 – Recorte de Gênero”, lançada na sede da ONU, em Nova York, durante a 70ª CSW (Comissão sobre a Situação da Mulher), mostram os desafios enfrentados por profissionais com deficiência e neurodivergência para ingressar, permanecer e crescer no mercado de trabalho.
O estudo, realizado pela consultoria Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil, ouviu mais de 1.700 pessoas e constatou que a exclusão começa antes mesmo da contratação, com 78% dos entrevistados já tendo enfrentado dificuldades em processos seletivos.
As mulheres são as mais penalizadas e 73% delas afirmam ter se sentido desvalorizadas ao receber ofertas de vagas abaixo de sua qualificação (contra 68% dos homens) e 55% perceberam certo despreparo dos recrutadores para conduzir o processo de forma acessível e inclusiva (contra 49% dos homens).
A mobilidade também é um obstáculo estrutural citado por 60%das entrevistadas, que já vivenciaram alguma situação de exclusão, como desistir de procurar emprego ou perder compromissos, por falta de acessibilidade no trajeto.
Segundo o levantamento, essa desigualdade reverbera na independência financeira, já que apenas 51% das mulheres são responsáveis por ao menos metade da renda da casa, em comparação com 61,8% dos homens.
Barreiras do capacitismo
Mesmo quando conseguem acessar o mercado, elas esbarram em um teto de vidro difícil de transpor. Enquanto 63% dos homens dizem nunca ter recebido uma promoção, 70% das mulheres nunca subiram de cargo.
Quanto ao desenvolvimento dentro da empresa, embora 54% dos entrevistados tenham recebido algum treinamento técnico ou comportamental nos últimos 12 meses, 4 em cada 10 avaliaram que o formato não foi totalmente acessível.
Segundo a pesquisa, o capacitismo cria um ambiente de trabalho hostil, com 89% das mulheres afirmando já terem passado por alguma situação de preconceito na empresa, 7 pontos percentuais a mais que os homens.
As formas mais comuns são a subestimação da capacidade (43%), comentários capacitistas (41%), dificuldades de acessibilidade (38%) e exclusão de oportunidades e projetos (36%).
Esse preconceito costuma vir de superiores (63%) e de colegas de equipe (60%), resultando em um silenciamento no qual apenas 23% dos casos são relatados à empresa, e a grande maioria, 8 em cada 10 pessoas, não se sente totalmente acolhida após fazer a denúncia.
Solidão e saúde mental
Outro ponto salientado pela pesquisa é quanto a solidão no ambiente de trabalho. Cerca de 38% das mulheres sentem que é difícil se enturmar e criar relações com quem trabalham (contra 26% dos homens) e 37% afirmam não ter amigos no trabalho (contra 31% dos homens).
Esse isolamento impacta a saúde mental. Cerca de 79% das respondentes não se sentem totalmente à vontade para conversar sobre saúde mental com suas lideranças ou com o RH.
E quando buscam ajuda institucional, encontram ainda mais barreiras: embora metade das empresas (50%) ofereça programas de saúde mental, 57% dessas iniciativas não estão acessíveis, segundo os entrevistados.
Segundo Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir e responsável por apresentar o estudo em Nova York, para que uma mudança realmente aconteça, é preciso que as empresas e governos incorporem esses indicadores em políticas e decisões corporativas.”Enquanto o capacitismo for negado, pessoas com deficiência seguirão oprimidas e esses indicadores não avançarão”, ressalta.