Em pleno século 21, ainda causa estranheza casos de mulheres que não querem ou se arrependeram de ter filhos. É como se fosse algo antinatural, uma aberração, algo muito equivocado. Uma reportagem recente da BBC trouxe depoimentos de mães que, se pudessem voltar atrás, nunca teriam sido progenitoras. Relatam culpa e vergonha de seus sentimentos paradoxais, amam as crianças, ao mesmo tempo em que lamentam ter engravidado. Não à toa, as participantes da matéria só toparam dar entrevista sob a condição do anonimato. Elas sabem que, se falassem abertamente sobre isso, seriam “apedrejadas em praça pública”.
Um tempo atrás, escrevi um artigo afirmando que nem toda mulher nasceu para ser mãe e, agora, faço uma pequena correção. Temos capacidade biológica para gerar filhos; mas não é por isso que precisamos tê-los. Isso deveria ser uma escolha, mas, quase sempre, por pressão da sociedade, acaba se tornando uma obrigação.
O problema, a meu ver, é o estereótipo que se cria em cima da maternidade. É comum ouvir que fulana só conhece o amor verdadeiro ao virar mãe; que só se torna mulher, de fato, ao ter filhos. Para algumas, pode até ser assim. Mas não é regra, não funciona pra todo mundo; afinal, não somos todas iguais. Outra crença ilusória é a de que se trata de algo leve, até “mágico”, de felicidade plena. Não é verdade. A gravidez, para muitas, pode ser um período extremamente difícil. Há os enjoos, sono incontrolável, sobrepeso, inchaço, dores. O corpo muda, e a autoestima tende a ficar abalada. Após o nascimento, surgem novos desafios: noites mal dormidas, esgotamento, falta de tempo para si mesma.
Um estudo interessante, feito por pesquisadoras da Universidade de Brasília (Unb) e publicado em março deste ano em uma edição da New Science Publishers, apontou três fatores que levam ao arrependimento de se tornar mãe: maternidade idealizada; sobrecarga e exaustão; e abrir mão de si. Vejo que essa exigência social traz danos sobretudo a dois tipos de mulheres: as que não desejavam ser mães, mas se tornaram por obrigação ou culpa; e as que queriam ser, mas tiveram as expectativas frustradas depois do nascimento do bebê.
Se não houvesse tanta romantização em cima desse tema, talvez essa segunda categoria pudesse ponderar e se preparar de maneira mais realista para esse momento. As consequências são mulheres adoecidas pela culpa e sensação de fracasso, sentimentos que poderiam ser elaborados, não fossem tratados com tanto preconceito. Mais: há efeitos nocivos também sobre as crianças que, não raro, sentem-se confusas e desamparadas por crescer em um ambiente muitas vezes marcado pela ambivalência não nomeada. Enquanto a maternidade for tratada como imposição, continuaremos produzindo mais sofrimento do que vínculo.
Mas há esperança: tenho percebido, ainda que de uma maneira isolada, o surgimento de mulheres falando abertamente sobre o desejo de não ter filhos. A vencedora do BBB 26, Ana Paula Renault, revelou durante o programa que não tem planos de ter filhos. No início deste ano, a cantora Anitta declarou não possuir vontade alguma de ser mãe. Recebeu críticas, mas também apoio de fãs. Outras celebridades também vêm seguido o mesmo caminho. A atriz Paolla Oliveira contou recentemente não querer ser mãe; e a apresentadora e jornalista Ana Paula Padrão costuma dizer que a escolha por não ter filhos sempre foi consciente. Ainda que tal atitude se restrinja ao meio artístico, é um começo. Quem sabe possa ser um incentivo para que cada vez mais mulheres se sintam à vontade para falar abertamente sobre suas escolhas, sem medo do julgamento alheio.