No início deste mês, o motorista de um carro de luxo foi flagrado pelas câmeras de um estacionamento de São Paulo destruindo equipamentos e agredindo um funcionário do local. O motivo, aparentemente, foi a demora em a cancela de saída abrir; o homem teria se irritado, quebrado totens e câmeras e, ao perceber que estava sendo filmado, partiu para cima do segurança, dando socos e chutes.
O prestador de serviços atacado foi levado ao hospital com uma fratura grave na perna e, quando a notícia foi divulgada, no dia seguinte à ocorrência, o condutor ainda não havia sido identificado. É um caso absurdo, sobretudo pela motivação torpe, mas o que chama ainda mais a atenção, a meu ver, é como crimes banais como esse têm se
tornado frequentes em nossa sociedade, resultando em vítimas, muitas vezes, fatais.
Nos últimos meses, várias ocorrências por razões desprezíveis causaram comoção em todo o país. Só para citar dois deles: no fim de janeiro, um ex-piloto foi preso após espancar um adolescente de 16 anos, que morreu semanas depois em um hospital em Brasília, com traumatismo craniano e parada cardiorrespiratória. A briga começou após o ex-piloto jogar um chiclete em um amigo da vítima; posteriormente, a investigação indicou que o motivo real teria sido um “acerto de contas” por ciúmes.
Em Belo Horizonte, no fim do ano passado, um empresário atirou e matou um coletor de lixo porque o caminhão bloqueava sua passagem quando ele ia para a academia. Segundo um levantamento do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), homicídios por impulso ou motivos fúteis totalizam até 80% das ocorrências no Brasil.
Diante desses dados, não é exagero afirmar que vidas humanas nunca valeram tão pouco como na atualidade. O que explica esse fenômeno trágico? Uma das razões, a meu ver, é a percepção ilusória de que hoje em dia tudo é descartável. A simples tarefa de tirar fotos é um exemplo disso. Décadas atrás, fotografar era um ritual que exigia
paciência e perseverança: era preciso levar o filme ao laboratório e aguardar alguns dias para que a revelação ficasse pronta e, mesmo que as imagens não estivessem perfeitas, eram guardadas com esmero, como uma memória, dentro de um álbum.
Esse processo, agora, dura menos de um segundo; tira-se a foto e, se não ficar satisfatória, basta apagar e, no segundo seguinte, tira-se outra; e assim por diante. Não “sonhamos” mais com a fotografia; esse processo virou algo automático, em que nem necessitamos pensar sobre ele. Isso não vale apenas para fotos. É assim com roupas, sapatos, alimentação, entretenimento e – o mais preocupante – também com relações interpessoais.
Em sua obra “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos”, o sociólogo Zygmunt Bauman faz uma excelente observação sobre o tema. Segundo ele, as relações se tornaram “conexões” que podem ser desfeitas a qualquer momento, e as pessoas passaram a ser tratadas como mercadorias. Elas são prontamente substituídas caso parem de fornecer satisfação imediata, e eliminadas só pelo fato de provocar aborrecimentos. Aí, surge outro grave problema: nossa sociedade está cada vez menos capaz de tolerar frustrações. Se as coisas não saem do jeito que o sujeito quer, a situação vira uma afronta insuportável, que justifica, de maneira totalmente distorcida, depredações, agressões, assassinatos.
A capacidade de tolerar frustrações é um dos pilares do desenvolvimento humano. Como explica o psicanalista inglês Donald Winnicott, é por meio dela que aprendemos a reconhecer a existência do outro como alguém separado de nós, com desejos e vontades distintas. É algo fundamental para o exercício da empatia, do respeito e do convívio social. Esse processo começa em casa, na criação dos filhos, quando regras e limites são estipulados. Tenho notado, entretanto, cada vez mais pais que não concordam com esse ponto de vista.
Recentemente, ouvi o seguinte questionamento: “por que vou decepcionar meus filhos, se posso empoderá-los e,
assim, aumentar a autoestima deles?” Trata-se de um equívoco perigoso. A frustração não faz parte apenas do amadurecimento saudável; ela é inevitável. Quando os pais se recusam a frustrar os filhos, a vida assume esse papel mais tarde — quase sempre de forma muito mais violenta. Aí, em vez de sujeitos confiantes e preparados para a fase adulta, teremos indivíduos imaturos e inseguros, que fazem de tudo para evitar se decepcionar, inclusive passar por cima dos outros; até matar.
Se quisermos combater o crescimento exponencial de crimes absurdamente fúteis, precisamos repensar, com urgência, que tipo de cidadãos estamos formando, em uma sociedade que promete satisfação total e ensina, cada vez menos, a lidar com as perdas, os limites e as decepções. E quando desaprendemos a conviver com a frustração, deixamos de reconhecer a humanidade do outro. Aí, até as pequenas contrariedades podem se converter em tragédias.