O sonho americano pode parecer abstrato até ganhar traços reais de liberdade. Para a advogada Larissa Salvador essa ideia não é discurso, é memória. À frente da Salvador Law, escritório de advocacia focado em questões de imigração, Larissa atua nos Estados Unidos e também no Brasil, com filiais em Salvador e no Rio de Janeiro. Foi reconhecida com o Prêmio Personalidade Feminina de 2025, além de ser campeã pan-americana de jiu-jitsu entre 2011 e 2012.
Contudo, sua primeira ida aos EUA, aos 11 anos, foi extremamente impactante. Ainda criança, ela deixou o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e se mudou com os pais e o irmão mais novo para o novo país.
Sem falar inglês e com poucos recursos, a mudança aconteceu às pressas, sem planejamento ou qualquer estrutura. “Nós estávamos sofrendo ameaças, e a única alternativa era ir embora da cidade”, conta.
A primeira parada foi a Califórnia, mas a adaptação foi desafiadora. O convite veio de um dos membros da comunidade evangélica que a família frequentava ainda no Brasil e que ofereceu suporte. “Foi uma imersão total. Primeiro aprendi espanhol, e depois inglês”, diz.
A advogada, os pais e o irmão entraram no país como turistas. Seis meses depois, ela já estava matriculada na escola, poucos dias antes dos atentados do 11 de setembro de 2001, data que marcou não apenas os Estados Unidos, mas o mundo. “Lembro nitidamente de estar sentada na sala de aula quando alguém entrou correndo para dizer que dois aviões tinham atingido as Torres Gêmeas. Eles falavam em ataque terrorista”, recorda.
Ela também se lembra da conversa que teve com os colegas e da dificuldade de entender o que estava realmente acontecendo. “Eu cresci vendo tiroteios pela janela de casa, no Complexo do Alemão. Então como assim aviões entram em prédios nos EUA?”
Além dos atentados, os desastres naturais que atingiam o Estado também assustavam a família. “Muitos terremotos e tremores. No primeiro, eu corri para um canto, me agachei e comecei a chorar”, diz.
Enquanto isso, a mãe da advogada enfrentava um quadro de depressão, enquanto o pai passava horas trabalhando fora e ela ajudava nos cuidados do irmão mais novo.
“Depois de seis meses morando na Califórnia, meus pais decidiram que voltariam para o Brasil. Mas uma amiga da família, que morava na Flórida, nos convidou para passar uns dias na casa dela.”
Mais uma chance
Na Flórida, a vida da família começou a ganhar novos movimentos. A paisagem trazia memórias afetivas, lembrava as praias do Rio de Janeiro e de Salvador, cidades que fazem parte das origens.
Eles decidiram permanecer no país, Larissa entrou para o ensino médio, passou a participar de serviços comunitários e se envolveu em um Programa Militar da Marinha, no qual chegou ao posto de capitã do batalhão. “Foi uma excelente experiência competitiva. Por diversas vezes, ficamos em primeiro lugar no Estado e eu cheguei a ganhar a medalha de Mulher de Ferro”, conta.
A advogada também se dedicava às corridas e representava a escola em campeonatos. Aluna aplicada, atleta disciplinada, tinha o futuro traçado. Larissa queria entrar na faculdade, mas a realidade era outra. “Aos 16 anos, a minha ficha caiu, e entendi que eu e a minha família vivíamos de forma ilegal no país, não tínhamos documentos, nada que comprovasse a nossa residência nos Estados Unidos”, detalha.
O sonho americano
Enquanto os outros alunos aplicavam bolsas para as universidades, Larissa sofria. “Estava no auge da rebeldia, só conseguia chorar e ter raiva. Sentia que pagava o preço por uma decisão que eu não tomei”, diz.
O apoio veio de uma conselheira estudantil, que passou a buscar alternativas e bolsas que não exigissem a comprovação do ‘Social Security’, um documento equivalente ao CPF dos brasileiros.
Larissa foi aprovada em todas as universidades para as quais se candidatou. Primeiro, concluiu a graduação em Justiça Criminal e, em 2018, se formou em Direito pela Nova Southeastern University, em Fort Lauderdale.
Antes de prestar o exame exigido para ingressar na faculdade de Direito, o LSAT, ela se casou com um americano e, por meio do casamento, obteve a documentação definitiva para permanecer no país.
Mas, durante a faculdade, enfrentou fases difíceis, incluindo um relacionamento abusivo. Ainda assim, encontrou nos estudos, e principalmente no esporte, uma forma de resistência. Lutadora de jiu-jitsu, foi campeã pan-americana entre 2011 e 2012.
“Eu treinava de manhã, à tarde e à noite, em todos os horários que conseguia, porque aquilo me tirava daquele ambiente e me ajudava a manter o foco. O jiu-jitsu salvou a minha vida”, afirma.
Especialista em Imigração Americana
No mesmo ano em que se formou em Direito, Larissa pediu o divórcio. “Perdi uma data importante e não pude fazer a prova da Ordem naquele momento. Só consegui no ano seguinte”, lembra.
Até então, ela trabalhava há cinco anos como assistente em um escritório especializado em imigração, sem a ambição de se tornar uma profissional reconhecida na América. “Minha chefe me prometia sociedade, dizia que eu faria parte do negócio. Depois da minha formatura, fui demitida”, conta.
A realidade, no entanto, ficou ainda mais difícil. Com o fim do casamento, ela perdeu toda a poupança acumulada, mais de US$ 20 mil, levada pelo ex-marido.
Mas foi durante uma conversa decisiva com o pai que ela enxergou o próprio potencial empresarial. “Eu me lembro de falar com ele e ouvir: ‘Larissa, você sabe fazer, então por que vai continuar construindo o sonho dos outros, se pode construir o seu?”.
A pergunta se tornou ponto de partida. Pouco tempo depois, a advogada abriu o próprio escritório na Flórida, com apenas US$ 3 mil na conta, em uma sala emprestada por um amigo e passou a atender brasileiros. Entre os clientes, nomes conhecidos como o cantor Alexandre Pires, a dupla Ana Vitória e o humorista Whindersson Nunes.
À frente da Salvador Law, Dra. Larissa mantém atuação nos Estados Unidos e também no Brasil, com filiais em Salvador e no Rio de Janeiro. No ano passado, ganhou o Prêmio Personalidade Feminina de 2025, em uma cerimônia no Copacabana Palace.