O Brasil detém o posto de segundo maior mercado de perfumaria do mundo, segundo a consultoria Euromonitor, totalizando um gasto de cerca de R$ 18 bilhões. No entanto, durante décadas, a indústria nacional permaneceu à sombra de marcas estrangeiras já consolidadas, com pouco espaço no mercado para produções autorais.
Foi para desafiar esse status que a Amyi ganhou vida. Fundada no final de 2019 por Larissa Mota e Luciana Guidi, e reforçada pela chegada de Paula Penna em 2021, a marca se estabeleceu como uma “beautytech” voltada à perfumaria de nicho.
Com o encontro intermediado pelo tempo em que trabalharam juntas na Mary Kay, em 2019, Paula ainda orquestrava o marketing da marca enquanto Larissa trabalhava no desenvolvimento de fragrâncias na suíça Givaudan, em Nova York, e Luciana liderava o branding e comunicação da FSB.
“Não só verbalizamos sonhos em formas diferentes que gostaríamos de fazer a perfumaria acontecer no Brasil, como também compartilhamos frustrações, trabalhando juntas de onde estávamos”, conta Luciana.
Nesse diálogo, uma inquietação comum se tornou evidente entre elas. “Vínhamos desse estigma de que perfume bom é perfume importado. Não tínhamos essa paixão, esse orgulho pelas marcas locais”, relembra Larissa.
Em vez de encomendar fórmulas genéricas desenhadas para agradar a maior parcela do público, elas decidiram criar a Amyi apostando em criações autorais e em matérias-primas de maior qualidade. “Damos total liberdade criativa para os perfumistas, tratamos eles como verdadeiros artistas, que é algo muito inédito no mercado mundial”, explica Luciana.
Vender perfume pela internet
A ideia inicial, e que acabou por se tornar parte da identidade da marca, era vender os produtos exclusivamente on-line para conseguirem competir com a qualidade dos produtos internacionais, porém com preços mais acessíveis.
Mas como vender perfumes sem a possibilidade de sentí-los na pele antes? Afinal, como escolher um aroma sem o olfato? A resposta veio através de uma jornada educativa: a “Experiência Amyi”.
Trata-se de um Discover Set onde o consumidor recebe miniaturas em casa e é conduzido por uma plataforma imersiva. Com o tempo a seu favor e munido de materiais sobre as notas e as inspirações de cada perfumista, o cliente pode testar as fragrâncias no próprio ritmo. Essa sacada resultou em um índice de devolução praticamente nulo, inferior a 1%.
“A fragrância é volátil. Nos primeiros 10 minutos, você vai sentir algumas notas e, depois, outras. Ela muda em contato com a pele. Por isso, é comum alguém comprar um perfume que amou na hora, mas se arrependeu depois”, explica Luciana.
Reconhecimento nacional
A aposta não demorou a atrair clientes. Em 2020, o Amyi VIII, uma mistura de baunilha e sal marinho assinada por Samuel Moraes, fez da marca a primeira brasileira finalista do prêmio The Art and Olfaction Awards, em Los Angeles. Pouco depois, foi a vez do tabaco caramelizado do Amyi 5.22 conquistar o Glamour Beauty Awards, em 2025.
O reconhecimento internacional provocou um caos positivo na operação: os estoques, antes planejados para um ano inteiro, esgotaram-se em poucos dias. Para sustentar esse crescimento, a marca atraiu investimentos da GV Angels e investimentos de Caito Maia e Camila Farani, ao participarem do Shark Tank Brasil.
Por mais que os perfumes tenham sido pensados para serem unissex, a expectativa era de que a base de consumidores fosse predominantemente feminina. No entanto, desde o início, os homens representaram cerca de 50% e a maioria entre os índices de recompra.
Eles são os que mais recompram as mesmas fragrâncias, principalmente o Amyi 2.11, mas, independente do gênero, muitos voltam para presentear outras pessoas com a jornada ou se tornam “colecionadores”. “No final das contas, é o brasileiro que está aprendendo a escolher melhor, está aprendendo a valorizar o que vem daqui”, contam.
O poder da neurociência e das emoções
Para a Amyi, e os estudos de neurociência, a perfumaria atua como um catalisador comportamental, com os aromas que nos cercam ditando atitudes e moldando nosso humor ao longo do dia.
Após registrarem devolutivas de milhares de consumidoras sobre suas impressões ao borrifar cada fragrância, nasceu a ideia de criar rotas olfativas.”Às vezes elas narram que lembraram de uma memória passada ou narram uma projeção futura. Tudo isso é base de dados para a gente”, explica Larissa.
Foi assim que veio ao ar a coleção Boosters, que mistura ingredientes para provocar sensações de refrescância, sensualidade e ousadia sobrepondo a essência a qualquer outro perfume.
Com o sucesso da coleção e da loção hidratante do Amyi 5 (a fragrância mais vendida da marca entre o público feminino), a empresa planeja em breve a expansão para o mercado de home care, com velas e aromatizantes, além de se preparar para o lançamento da 25° fragrância, prevista ainda para o primeiro semestre.
“Muitas empresas estudam qual aroma mais agrada a população, aquele que vai vender para 70% a 80% do público, e dedica toda a produção para ele. O problema é que elas entram em um ciclo vicioso sem inovação, queremos a expansão da perfumação para o corpo em outros formatos”, contam.