Como a campeã de jiu-jítsu Carina Santi incentiva mulheres no esporte

Vice-campeã mundial e empresária, ela está a frente da Almeida JJ Woman and Kids, academia voltada ao público feminino em São Paulo

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Com mais de 60 alunas matriculadas em seis meses de operação e a perspectiva da academia é atingir 100 matrículas até abril. Foto: Divulgação

Em meio ao bullying, dificuldades financeiras em casa e inseguranças com o próprio corpo, Carina Santi, 36, encontrou no esporte um refúgio e, hoje, sua principal fonte de renda. Uma das maiores atletas de jiu-jítsu do país, ela comanda a Almeida JJ Woman and Kids, academia voltada especialmente para aquelas, como ela, que precisam conciliar os treinos com a maternidade. 

Natural de Osasco, SP, ainda na escola, o esporte já começou a fazer parte de sua vida, primeiro com o handebol, que fez com que ingressasse na faculdade de educação física na UNIBAN, e depois com o que mudaria sua trajetória pessoal e profissional: o jiu-jítsu .  

O primeiro contato veio enquanto estagiava como professora na academia “Workout”, no primeiro ano da faculdade. “De primeira instância eu não queria entrar porque eu achava nada a ver, um monte de homem se agarrando, fedido e não tinha nenhuma mulher treinando”, conta.   

Porém, após perder o pai dois dias antes de seu aniversário, entre crises de pânico, ansiedade, depressão e retorno à obesidade, ela recebeu o convite de um colega, Júlio Pinheiro, que mais tarde viria a se tornar seu mestre no esporte.

“Ele me disse ‘Meu, você não tá muito legal não, vamos fazer um treino de jiu-jítsu . Acho que vai ser legal para você’”, relembra. Ela começou a lutar e, após apenas quatro meses, aceitou disputar o Campeonato Paulista, do qual saiu campeã.

Após se formar, ainda competindo, Carina decidiu se profissionalizar no esporte e começou a desenvolver o próprio método de preparação física voltado ao jiu-jítsu , em uma época que praticamente não havia nenhum estudo específico na área. 

Tornou-se pioneira como preparadora física e trabalhou com campeões mundiais como Bianca Basílio, Léo Lara, Cléber Clandestino, Jackson Rubens, Caio Almeida, Diogo Almeida e Gustavo Almeida. Com Diogo, aliás, construiu também a própria família. 

A faixa-preta veio em 2014, quando estava grávida de cinco meses de sua primeira filha, Alícia, e voltou a competir seis meses após o parto, disputando a seletiva para o World Pro ainda amamentando.

Carina Santi com seus filhos: Alícia, 10, e Bernardo, 5. Crédito: Divulgação

Sem patrocínio fixo, ela financiou sua carreira desde a faixa branca com rifas e aulões. “Tenho muita dificuldade de ter patrocínio e a maioria das lutadoras também, porque tem muita objetificação do corpo e eu não vou ficar sensualizando e usando o meu esporte em troca de dinheiro”, comenta. 

A ascensão no esporte

Entre 2015 e 2019, ela voltou a figurar entre as melhores do mundo. Foi bicampeã e campeã europeia, vice-campeã panamericana por dois anos consecutivos e vice-campeã mundial na faixa-preta, tudo no pós-parto e após cirurgia no joelho.

Paralelamente à carreira esportiva, em 2019, Carina assumiu uma academia de musculação praticamente falida, com 50 alunos, que em pouco tempo se transformou em uma operação com mais de 400 pessoas matriculadas. 

“Eu trabalhava sozinha nessa academia. Eu dava aula das 6 da manhã até 11 horas, fechava a porta, comia uma marmita rápido, atravessava a rua, treinava jiu-jitsu, voltava, fazia preparação física, abria a porta e aí ia até 11 horas da noite sozinha”, relembra. 

Na pandemia, com as academias fechadas e aumento dos casos de violência doméstica, Carina decidiu voltar seu trabalho à defesa pessoal. Ela criou cursos online, como o “Defesa Consciente” e o “Guardeiros Old School”, onde produziu conteúdos gratuitos.

Durante esse período, ela também se formou como doula, auxiliando no período de pré e pós parto, e se especializou em preparação física para gestantes, passando a atuar de modo mais ativo com a saúde da mulher. “Foi nessa fase que eu tive acesso a ‘Carina feminina’ novamente e comecei a ter empatia por outras mulheres de verdade”, relembra.

A criação da Almeida JJ

Com o fim do confinamento, Carina começou a enfrentar a concorrência de grandes redes, como a Smart Fit, e viu o número cair para 150 alunos, momento em que decidiu fechar as portas da academia que gerenciava com a ajuda da mãe e focar no negócio principal da família, a Almeida JJ Tatuapé.

Originada de um projeto social, a equipe foi criada por Diogo e seus irmãos, Gustavo e Caio Almeida, e já possui mais de 50 unidades espalhadas pelo país. Carina, junto com seu marido, está no comando de três delas e a unidade mais antiga já fatura em torno de 100 mil. Em conjunto, eles treinam mais de 600 alunos há oito anos.

Segundo dados do Diagnóstico Nacional do Esporte, a presença dos homens é quase cinco vezes maior no esporte. Em um cenário em que as mulheres são as principais atletas de jiu-jítsu do país e as que mais figuram nos pódios, Carina decidiu incentivar a entrada delas com a criação da Almeida JJ Woman and Kids, no Tatuapé. 

O futuro da academia

Braço da Almeida JJ voltado exclusivamente para mulheres e crianças, a academia possui uma abordagem que também dá atenção ao desenvolvimento emocional e a educação alimentar, visando um estilo de vida mais saudável para as crianças. 

Com mais de 60 alunas matriculadas em seis meses de operação e a perspectiva de atingir 100 matrículas até abril, o objetivo é incentivar a entrada e otimizar o tempo das mães, oferecendo aulas simultâneas para que elas também possam treinar. 

“Não é fácil, porque é um nicho muito específico. A mulher já tem aquela coisa de não querer lutar, então estar com esse número de clientes é muito legal, porque nenhuma academia consegue bater isso em tão pouco tempo”, comenta. 

Carina também fornece aulas de defesa pessoal tanto para as crianças quanto para as mães, pensando em sua proteção nas ruas e em casa. Na próxima semana, também irá ministrar um curso antibullying gratuito e aberto ao público. 

“A questão da defesa pessoal é algo  que eu bato muito na tecla, não é só na hora que você precisa agir, é o antes. Ensinamos técnicas de defesa pessoal, de postura e de como se comportar, com a análise do ambiente e das pessoas”, explica.