Às vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, dia 3 de maio, novo relatório “Ponto de Virada”, lançado pela ONU Mulheres, mostra que a violência online contra jornalistas está aumentando cada vez mais.
Com base no depoimento de 641 mulheres de 119 países, o estudo traz que o abuso não é um mero “acidente”, mas trata-se de uma ação coordenada para silenciá-las e destruir suas reputações.
A inteligência artificial trouxe uma camada adicional aos ataques. Segundo a pesquisa, 12% das jornalistas e ativistas já tiveram fotos pessoais, incluindo conteúdos íntimos, expostas sem consentimento. Além disso, 6% foram vítimas de deepfakes — vídeos ou fotos manipuladas.
Mas isso não exime o assédio direto, com 27% das entrevistadas afirmando terem recebido investidas sexuais, como o envio de imagens obscenas (cyberflashing). Os agressores agora usam apps para criar cenas de nudez ou violência sexual falsa.
Segundo consta no relatório, um único aplicativo desse tipo gerou mais de 3 milhões de imagens até janeiro de 2026, chegando a produzir 6,7 mil fotos por hora em momentos de pico.
O impacto na saúde mental
Esses ataques se alastram e também afetam a saúde mental delas. Cerca de 24,4% das mulheres ouvidas foram diagnosticadas com ansiedade ou depressão por causa do ódio online. Outras 13% sofrem de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Entre escritoras e comunicadoras, o cenário é ainda mais grave: 39% apresentam depressão ou ansiedade e 22% enfrentam o TEPT. Entre jornalistas, o índice de adoecimento mental chega a 25%.
Segundo o estudo, o objetivo final da violência é o silenciamento, e ele está sendo atingido, com 41% das mulheres se auto censurando nas redes para evitar ataques, e 19% deixando de opinar até no ambiente de trabalho.
A situação das jornalistas é ainda pior: em 2025, 45% delas admitiram usar a autocensura, um aumento de 50% em cinco anos. Além disso, 22% limitam o próprio trabalho profissional por medo, número ainda maior entre as escritoras (50%).
“Sem aguentar a pressão, pedi demissão. Agora estou em casa tentando recuperar minha saúde mental. Fui forçada ao silêncio e ao desemprego”, diz uma das entrevistadas.
A falha na legislação
Em 2025, o número de jornalistas que procuraram a polícia dobrou em relação a 2020. No geral, 25% das vítimas buscaram as autoridades e 15% acionaram a Justiça.Porém, apenas 10% das denúncias resultam em acusações formais. Muitas vezes, o processo é traumatizante: 24% das mulheres foram culpabilizadas pela própria polícia.
A falta de leis piora tudo. Menos de 40% dos países têm legislação contra o assédio virtual, o que não é o caso do Brasil. A maior mudança aconteceu com a sanção da Lei nº 14.811/2024, que incluiu oficialmente o crime de intimidação sistemática, conhecido como bullying, e sua versão digital, o cyberbullying, no Código Penal.
Com essa nova regra, os crimes podem resultar de dois a quatro anos de prisão, além de uma indenização, se qualificando episódios de perseguição, humilhação ou constrangimento que aconteçam no ambiente digital.