Natural de Jandaia do Sul, no interior do Paraná, Adriana Villela saiu de uma cidade de 21 mil habitantes para o comando da Havanna no Brasil. Hoje, aos 54 anos, ela não apenas lidera a marca argentina, como faturou R$ 420 milhões em 2025, com 250 unidades espalhadas pelo país.
Porém, sua trajetória com o empreendedorismo começou a ganhar fôlego ainda em Curitiba, para onde a família se mudou em busca de melhores oportunidades de estudo quando seu irmão passou na faculdade.
Aos 14 anos, ela já trabalhava em feiras e eventos como recepcionista para conseguir seu próprio dinheiro e comprar roupas e viagens. Aos 17, começou a cursar Administração de Empresas na FAE (Faculdade de Administração e Economia).
Na época, conciliava a faculdade com um estágio, que entrou já no primeiro semestre e recebia apenas o vale-transporte, em uma rotina que englobava três ônibus para ir e voltar todos os dias.
Quando completou 20 anos, ela recebeu uma proposta de emprego em São Paulo, mas a mãe foi contra a mudança e disse que ela só sairia de casa casada. “Sempre tive esse lado que não queria só me casar, eu queria fazer minha vida, conquistar minhas coisas, ter uma vida profissional. Eu queria construir um negócio desde pequena”, relembra.
O nascimento da Supercolor
Essa vontade de empreender deu origem à Supercolor, uma rede de lojas de revelação de fotos que dominou o centro de Curitiba, logo após se formar, em 1997. “As pessoas chegavam com muito cuidado com aquele filme. Normalmente era um sonho, uma viagem, o aniversário de 1 ano de um filho ou fotos do casamento. Foi ali que comecei a prestar atenção no quão importante é o atendimento”, conta.
O sucesso, que fez com que a marca se expandisse para sete unidades, exigiu fôlego. Adriana almoçava marmita no caixa para cobrir o horário dos funcionários e mantinha o ritmo de segunda a sábado, trabalhando também aos domingos em épocas de feriados.
Nesse meio tempo, ela se casou e, cinco dias após o nascimento de suas filhas, ela já estava de volta a ativa. Porém, com o alerta de seu marido para o fim da era analógica após uma viagem ao Japão, ela decidiu vender a rede antes que o negócio evaporasse e se tornasse obsoleto.
“Ele me falou sobre as câmeras digitais e eu pensei: ‘Meu Deus do céu, temos que tomar uma providência, urgente, porque todo mundo revelava, não tinha ninguém que não revelasse uma foto. E o negócio da noite para o dia simplesmente ia acabar”, lembra.
Temporada nos EUA e fast fashion
Com a venda do negócio, Adriana percebeu um movimento das lojas de fast fashion que vinha se infiltrando no Bom Retiro, trazido por imigrantes coreanos, muito antes de lojas como Zara e H&M chegarem ao mercado.
Assim, ela enxergou uma brecha e abriu a Style Fashion em 2001 com a mesma proposta. Nesse meio tempo, ela continuou administrando a loja a distância e se mudou para Aventura, cidade perto de Miami, nos EUA, com o plano de alfabetizar suas filhas em inglês.
“Chegou lá na segunda semana falei, essa história de eu ficar aqui só levando filho para escola e cuidando da casa, não vai dar certo. Fui fazer outra faculdade.”
Foi assim que se matriculou em Design de Interiores no Miami Dade College, mas o idílio foi interrompido pelo 11 de setembro. O trauma dos ataques fez com que a estadia, antes planejada para três anos, se encurtasse e ela voltasse ao Brasil ainda em 2001.
De volta à Curitiba, ela começou a perceber a crescente saturação e competitividade do setor, com a abertura de lojas com maiores aportes e visibilidade. Com isso, decidiu voltar seu olhar para outro segmento: o de alimentação.
A abertura da Havanna no Brasil
Foi durante uma viagem à Assunção, no Paraguai, que, por acaso, conheceu os diretores da Havanna enquanto eles estavam fazendo uma visitação na loja. Foi o início de uma negociação de dois anos para que, finalmente, ela conseguisse trazer o famoso doce de leite ao Brasil em 2006.
Inicialmente, o plano contemplava apenas quiosques de venda dos produtos em shoppings, mas a empresária logo notou que o consumidor brasileiro gostava da “experiência de sentar e de ser servido”, transformando todas as operações em cafeterias.
Outro fator chave para o crescimento do negócio foi a adaptação do cardápio, com a adição de pão de queijo, coxinha e bebidas com paçoca, criada em comemoração à festa junina, mas que agora entrou para o cardápio permanentemente na região Nordeste.
“É importante, porque o cliente se sente não só valorizado, mas respeitado. Nós representamos uma marca argentina e queremos trazer e proporcionar essa experiência, mas ele é brasileiro. Ou seja, temos essa obrigação de unificar esses dois sentimentos”, conta.
A expansão da marca
Atuando com o sistema de franquias desde 2017, hoje a Havanna possui 250 unidades espalhadas pelo país, com a projeção de alcançar 500 lojas até 2027. O faturamento anda no mesmo passo, na casa dos R$ 420 milhões em 2025, com a perspectiva de encerrar o ano com R$ 500 milhões.
O segredo dessa escalada está na capacidade de infiltrar a marca no cotidiano das pessoas, segundo Adriana. Através de collabs, o doce de leite já está presente em barras de proteína e Whey Protein com a Nutrata, produtos com a Danone e até em creatina. A marca também aprendeu a alcançar novos públicos, oferecendo versões veganas, sem lactose e sem açúcar.
Em 2024, Adriana expandiu o portfólio com a criação da Heladería Havanna, modelo pioneiro entre os 12 países nos quais a marca está presente. Fruto de doze anos de estudos e pesquisas, o projeto foi um fenômeno imediato e já no primeiro ano representou 20% do faturamento.
Com a oferta de sabores como doce de leite, uma versão inspirada na famosa sobremesa argentina “três leches” e bolacha de limão, o volume de lojas saltou 70% após o lançamento, com a venda de 164 unidades de franquias da Helateria.
Para garantir que ninguém escape, Adriana agora planeja a abertura de cafeterias compactas, com um modelo 100% take away. São unidades pensadas para hospitais, universidades e prédios corporativos. “A ideia é que estejamos presente todos os dias na vida dos brasileiros, onde eles estiverem”, conta.