Como Esther Schattan levou uma marca brasileira ao design de luxo global

Sócia-fundadora da Ornare, empresária desenvolve mobiliário de alto padrão para clientes na Europa, no Oriente Médio e nos Estados Unidos

Kenji Nakamura
O nome da marca, "Omare', vem das palavras ‘decorar’ e ‘organizar’ em italiano. Foto: Kenji Nakamura

Para Esther Schattan, os móveis de uma casa revelam histórias de vida de seus moradores. Há 40 anos, ela fundou, ao lado do marido, a Ornare, marca brasileira de design de luxo especializada em móveis sob medida e acabamento artesanal, referência em funcionalidade, sofisticação e estilo.

Formada em engenharia pela Universidade de São Paulo, a empresária foi a única mulher da turma nos primeiros anos do curso. “Não foi fácil, mas também fui a primeira da classe a conseguir um estágio”, conta. Mais tarde, ao optar pela engenharia química, o cenário mudou um pouco: havia cerca de dez mulheres. “Na minha época, a USP recebia em média 600 alunos por ano, dos quais apenas 60 eram mulheres, o equivalente a 10%”, detalha.

Ainda assim, os ambientes majoritariamente masculinos não impediram Esther de construir uma trajetória marcada pelo empreendedorismo. “Eu sempre quis ter uma carreira. Não queria parar de trabalhar depois do casamento, como muitas mulheres faziam na época”, afirma.

No último ano do curso, conheceu o também engenheiro Murilo Schattan, que se tornaria seu marido e a convidaria para trabalhar em uma empresa de móveis. “Minha intenção era seguir na engenharia. Eu me adaptava bem ao ambiente masculino da época, mas, após o casamento, a ideia de empreender ao lado dele se tornou cada vez mais presente”, relembra.

O surgimento  Ornare

Juntos, o casal criou uma marca especializada em móveis sob medida de alto padrão. Segundo a empresária, o nome surgiu de uma conversa informal. “Ele estudava italiano e andava sempre com um dicionário embaixo do braço. Então perguntei o significado das palavras ‘decorar’ e ‘organizar’ no idioma”, conta.

Foi questão de tempo até que a empresa ganhasse destaque na região de São Paulo e despertasse o interesse de novos clientes. “Trabalhamos arduamente para iniciar a Ornare, era uma certeza em meio às incertezas”, relembra.

Na divisão de tarefas, Esther ficou responsável pela gestão, auditoria e marketing, enquanto o marido se dedicava ao desenvolvimento dos produtos e à produção. “Contratávamos profissionais para desenvolver os projetos, treinávamos arquitetos e investimos na área comercial”, diz.

Os primeiros móveis foram os armários. Desde o início, a proposta da marca era trabalhar com medidas precisas, proporções orgânicas e soluções harmônicas. “O cuidado com o espaçamento entre as prateleiras, o uso de madeira certificada, o acabamento rigoroso e a atenção ao projeto como um todo passaram a ser diferenciais da empresa”, afirma.

Para garantir esse padrão, a empresa passou a trabalhar com coleções e a investir em espaços físicos. “Nosso primeiro showroom foi na avenida Pedroso de Morais, no bairro de Pinheiros. Depois, fomos para a Alameda Gabriel Monteiro da Silva e, em seguida, para um shopping da região”.

Os showrooms, o atendimento e o pós venda rapidamente conquistaram o público e impulsionaram uma nova etapa da empresa. “Pessoas de fora de São Paulo começaram a visitar e a querer levar os produtos para suas casas em outros estados”, detalha.

Com isso, a marca investiu na área de logística, desenvolvendo estratégias para entregar os produtos em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Brasília. O movimento marcou a segunda etapa de expansão da Ornare, com a abertura de lojas fora da capital paulista. “Sempre mantivemos o mesmo princípio: atendimento com arquitetos e a criação de experiências personalizadas”, afirma.

Da produção local ao mercado global

Unindo funcionalidade, sofisticação, estilo ao empreendedorismo, a empresária revela que o interesse em expandir a produção para outros continentes surgiu naturalmente.

“Houve um momento em que me perguntaram se conseguiríamos entregar em outro continente. A resposta foi simples: se houver um cliente disposto a receber, nós entregamos”, relembra.

Esther conta que a Ornare passou a desenvolver projetos internacionais, com entregas na França e em Angola, ampliando ainda mais o alcance da marca. “Até que chegou o momento de dar um novo passo: a chegada aos Estados Unidos”, diz.

A primeira unidade americana foi aberta em Miami, em 2006, quando a cidade ainda despontava como um polo de design, com poucas lojas e galerias especializadas. “Vamos completar 20 anos de trabalho neste ano”, destaca.

A escolha se mostrou estratégica. Segundo a empresária, adquirir um armário da Ornare nos Estados Unidos representava uma nova etapa de consumo. “Miami funciona como uma vitrine natural. Muitas pessoas passam pela cidade ao menos uma vez por ano, seja a trabalho, turismo ou planejamento de vida”, afirma.

Esse movimento impulsionou a expansão global da empresa, que hoje desenvolve projetos em diferentes partes do mundo, incluindo países da Europa e do Oriente Médio, como Dubai. “Somos uma marca consolidada em diferentes regiões, com 12 showrooms nos Estados Unidos e um em Dubai. O cliente conhece a Ornare, cria vínculo e a leva para onde estiver”, conclui.