Conheça Gil Viana, produtora musical por trás da sonorização dos conteúdos da Globo

A baiana está à frente de três empresas no ramo e, além de ser a co-criadora, foi a produtora executiva do podcast "Mano a Mano", do Mano Brown

Divulgação/ Grazielle Salgado
Ela comanda a plataforma responsável pela sonorização dos produtos da Rede Globo com a Punks S/A. Foto: Divulgação/ Grazielle Salgado

Nascida em Jequié, no interior da Bahia, em uma cidade “muito, muito quente”, Gilvana Viana trilhou um caminho improvável que a levou de manicure em São Paulo a CEO de três empresas no ramo musical. A produtora é uma das idealizadoras por trás de um dos maiores podcasts do país, o Mano a Mano, e comanda a plataforma responsável pela sonorização dos conteúdos produzidos pela Rede Globo com a Punks S/A.

Mas sua trajetória começou muito antes, aos 15 anos, quando chegou a São Paulo e começou a trabalhar como manicure. Foi aos 18, ao entrar como auxiliar de escritório no estúdio do fotógrafo Arnaldo Pappalardo, que sua visão de mundo se expandiu. Seu mentor não apenas a incentivou a seguir na indústria, como pagou sua faculdade de Economia na FECAP.

Embora sonhasse em ser jornalista econômica, o destino a empurrou para o audiovisual. Passou por gigantes como Film Planet, como produtora de imagem, e Estúdios Mega, onde atuou na pré e pós produção de campanhas publicitárias. Porém, após alguns anos, ao engravidar do segundo filho, Gil decidiu que queria trabalhar com algo que tivesse uma linguagem mais artística e permitisse maior flexibilidade.

Após trabalhar sete anos em uma produtora de som, a empresária decidiu abrir sua própria agência em 2012: a MugShot. “Ser uma empresária negra no mercado de audiovisual, especificamente música, era mais estranho ainda. Mas eu acho que eu gosto de me colocar nesse lugar de causar estranheza”, conta. 

 A criação da produtora 

Há 16 anos, Gil deu o pontapé inicial para a criação da MugShot ao lado dos sócios Mauricio Herszkowicz e Arthur Abrami. O objetivo era criar uma produtora diversa em linguagens, raças e, consequentemente, em conteúdo. 

Hoje, a MugShot é referência e homologada pela Apple no Brasil há nove anos, atendendo agências de prestígio como África e Wieden+Kennedy. A empresa trabalha com a criação de jingles para campanhas publicitárias, tendo realizado campanhas com artistas gigantes, como Iza, BaianaSystem e os Gilsons. 

Como mulher preta em um setor onde, até então, as únicas pessoas parecidas com ela nas agências eram as recepcionistas, Gil também abraçou o desafio pessoal de trazer mais oportunidades para artistas independentes.

“Acho importante dar oportunidade para novos talentos e jovens periféricos. Tem gente que faz música com caixinha de fósforo e com a própria voz que ninguém dá oportunidade porque acha que aquilo é brincadeira. Aquilo é um talento nato que precisamos extrair das pessoas e colocar na rua”, pontua. 

A ideia por trás do fenômeno “Mano a Mano”

Durante a pandemia, em 2020, Gil enxergou uma oportunidade de ir além da publicidade. Ao conversar com Jorge Dias, filho de Mano Brown, percebeu o desejo do cantor de compartilhar seus estudos sobre cultura e ancestralidade com um público mais amplo, algo que até então só fazia em suas apresentações no Racionais MC´s. 

Assim nasceu a ideia do podcast “Mano a Mano”, uma parceria entre a MugShot, a produtora Boogie Naipe, tocada por Eliane Dias, casada com Brown, e a agência Gana. Lançado no Spotify, Gil, além de co-criadora, foi a produtora executiva do projeto, que contou com a participação do presidente Lula, Glória Maria, Ivete Sangalo e a deputada Érika Hilton, alcançando o topo das paradas e consolidando a produtora no mercado de conteúdo.

“Não é simplesmente um podcast falando de cultura, música ou política. É um podcast de uma pessoa que não fala com o público, não dá entrevista… Ter um podcast falando com dezenas de convidados para milhares de pessoas foi maravilhoso, foi disruptivo”, relembra

O ecossistema de produções

Aos 50 anos, hoje a empresária comanda um império criativo transatlântico, tendo atuado como jurada em festivais de prestígio como o Festival Internacional de Cannes, onde ganhou dez leões, e o D&AD Awards.  

Ela divide sua rotina entre São Paulo e Lisboa, onde mora com a família e, além da MugShot, Gil também lidera a Punks S/A, plataforma com mais de 1 milhão de músicas de artistas independentes (tendo a Rede Globo como o principal cliente há 8 anos).

Seu mais recente projeto, a CASABLACK, realizado em parceria com o sócio Alê Garcia, é uma agência criada para dar protagonismo a artistas e profissionais pretos fora do mainstream. 

“Onde estão os principais chefes de cozinha? Chefs gastronômicos pretos. Onde estão os artistas plásticos pretos? Nós não conhecemos, então queria fazer um trabalho onde pudesse dar luz a outros artistas”, conta

Outro viés importante de seu trabalho é a formação de novos talentos. Atualmente, ela prepara o lançamento do Mina Hit, projeto que visa treinar adolescentes da periferia na produção musical, com o apoio de artistas, que se tornarão “madrinhas” das alunas. 

“O meu olhar é fazer o diferente, fazer o que o mercado não está fazendo, é potencializar novos talentos. Sei o quanto é difícil você conseguir sair da periferia e alcançar um lugar de status. E quem é que te dá essa oportunidade? São as pessoas que assinam o cheque”, enfatiza.