Crescimento rápido de startups pode prejudicar carreira das mulheres

Estudo mostra que a pressão por expansão acelera vieses de gênero nas contratações e reduz o acesso das mulheres a cargos de liderança, mesmo em países com mais igualdade

Envato
Em startups lideradas por homens, o crescimento reduz em cerca de 18% a chance de contratação de mulheres. Foto: Envato

Os efeitos colaterais do crescimento acelerado de empresas são discutidos em novo estudo da Escola de Economia de Estocolmo publicado no domingo, 1. A pesquisa constatou que, quanto mais rápida a ascensão, maiores tendem a ser as desigualdades de gênero dentro das equipes e que, sob pressão, as decisões de contratação tendem a desfavorecer as mulheres, especialmente em posições de comando.

Publicado na revista científica Human Resource Management, o estudo analisou dados de mais de 31 mil startups fundadas na Suécia entre 2004 e 2018, um país reconhecido por altos índices de igualdade de gênero.

Mesmo assim, segundo os pesquisadores, momentos de expansão intensa, quando a empresa começa a contratar muito além do ritmo habitual, levam os fundadores a tomar decisões rápidas, que muitas vezes acabam reforçando estereótipos já existentes sobre quem “parece” mais adequado para determinados cargos.

A decisão pela contratação de homens

Os dados mostram que, em startups lideradas por homens, o crescimento reduz em cerca de 18% a chance de contratação de mulheres e em 22% a probabilidade de que elas sejam nomeadas para cargos de gestão. 

A escolha não é necessariamente regida por uma discriminação intencional, mas pela urgência, que transforma processos que deveriam ser estruturados, abrindo mais espaço para a análise de outras competências, em escolhas baseadas na intuição.

O efeito é ainda mais visível em cargos de liderança, nos quais a imagem tradicional de gestor ainda é associada ao masculino. Assim, as mulheres acabam ficando concentradas em funções operacionais, enquanto os postos estratégicos seguem majoritariamente ocupados por homens.

O papel do RH 

A pesquisa enfatiza a importância de práticas estruturadas de RH desde os estágios iniciais do negócio até posições mais altas. Nesse caso, as startups lideradas por fundadores com formação ou experiência em RH apresentam um cenário significativamente diferente.

Nessas empresas, as chances de contratar mulheres aumentam em mais de 30%, enquanto a probabilidade de nomeá-las para cargos de gestão cresce 14%, mesmo em contextos de expansão, por conta da maior familiaridade com processos seletivos mais objetivos e de critérios claros de seleção.

A presença de experiências prévias em empresas com políticas de recursos humanos consolidadas também ajuda, ainda que o impacto seja mais direcionado para o aumento da contratação feminina, mas sem grandes efeitos sobre promoções para cargos de liderança.

Nem as lideranças femininas escapam 

E esses vieses não se restringem a startups comandadas por homens. Empresas lideradas exclusivamente por mulheres também reproduzem padrões semelhantes quando estão inseridas no mesmo contexto de crescimento acelerado, embora em menor intensidade.

Mesmo em setores tradicionalmente femininos, a expansão aumenta a contratação de mulheres para cargos regulares, mas reduz a chance de que elas cheguem à gestão, justamente pelos mesmos mecanismos de familiaridade e segurança.