Em meio ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, pesquisas recentes ajudam a dimensionar como ainda se estruturam as desigualdades de gênero no mercado de trabalho. Levantamentos recentes mostram que as mulheres continuam em minoria em cargos de liderança, enfrentam diferenças salariais e acumulam maior carga de trabalho doméstico.
Ao mesmo tempo, os dados também apontam a importância das redes de apoio entre mulheres para a progressão na carreira. Uma pesquisa da Nexus e do Todas Group, realizada em fevereiro de 2026, mostra que 41% das entrevistadas contaram preferencialmente com o apoio de outras mulheres para ascender profissionalmente, por mais que ainda sejam minoria em cargos de liderança.
Ana Fontes, fundadora da RME (Rede Mulher Empreendedora), também ressalta a importância de incentivar mais mulheres a adentrar e crescer no mercado. À frente da Rede desde 2017, ela ajudou na arrecadação de cerca de R$37.310.649 com um impacto em mais de 725.826 mulheres.
Segundo a pesquisa, que ouviu 1.534 mulheres em cargos de liderança, o auxílio feminino é significativamente superior ao dos homens, responsáveis por apenas 14% do suporte. O levantamento também constatou que esse movimento é ainda maior entre as mulheres da nova geração, com esse índice chegando a 48% entre profissionais de 25 a 40 anos.
“Conectamos essas mulheres entre elas, porque a gente entendeu que é mais importante ainda para as mulheres que elas estejam juntas, conectadas para apoiar umas as outras”, enfatiza Ana, sobre as ações da Rede.
Contudo, a ascensão ainda cobra um preço desproporcional. A pesquisa da Nexus mostrou que 74% das líderes precisaram abrir mão do autocuidado para crescer, enquanto 53% sacrificaram a saúde mental e o tempo com a família.
A presença feminina no mercado
No setor público, um estudo do Movimento Pessoas à Frente, chamado “Desigualdade de Gênero em Cargos de Liderança no Executivo Federal” aponta que, embora as mulheres representem a maioria da população (51,5%), elas ainda são minoria nos cargos de liderança (42,4%), com a disparidade aumentando conforme a hierarquia sobe.
No setor privado, o cenário também persiste. De acordo com o relatório “Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas 2023-2024” do Instituto Ethos, as mulheres ocupam apenas 23,5% dos cargos executivos nas maiores empresas brasileiras.
Além disso, a sobrecarga com afazeres domésticos e cuidados familiares é apontada pela Pnad Contínua como a principal barreira para a presença delas no mercado. “As mulheres, por conta dessa questão, acabam dedicando menos tempo ao negócio e isso tem impacto”, explica Ana.
Esse “trabalho invisível” também gera reflexos na saúde: o SUS registrou um aumento de 54% nos atendimentos por Síndrome de Burnout entre mulheres em 2023, em comparação a 2024, superando os casos entre homens, segundo dados do Ministério da Saúde.
O abismo salarial e de representação
Dados do 4º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho também mostram que a diferença salarial permanece estagnada na casa dos 20%. Em média, as mulheres recebem R3.908,76,enquanto os homens ganham 4.958,43.
“70% das mulheres empreendem no que chamamos de “área de domínio da mulher”, que são moda, beleza, alimentação, serviços, etc, e o mercado financeiro, infelizmente, ainda não olha esse esses segmentos como sendo áreas potenciais”, conta.
A desigualdade é ainda maior entre as mulheres negras, que ganham 53,3% menos que os homens brancos. Na academia, segundo o estudo “Desigualdades Raciais na Ciência Brasileira” de 2023, elas representam apenas 2,5% das docentes em programas de pós-graduação em Ciências Biológicas e Exatas registrados no país.
As barreiras não são apenas financeiras, mas comportamentais. Segundo a pesquisa da Nexus, oito em cada dez mulheres em cargos de liderança relataram ter sentido o machismo como um impeditivo para crescer.
Além disso, 63% afirmaram que homens dificultaram diretamente seu crescimento e apenas 11% nunca presenciaram comentários machistas no ambiente corporativo. Curiosamente, em empresas onde há maior equilíbrio de gênero na liderança, o desrespeito cai drasticamente: 65% dizem raramente ou nunca ouvir comentários desse tipo.
As perspectivas de mudança
Em meio a comemoração do Dia Internacional, é necessário a implementação de ações concretas e não apenas homenagens simbólicas. Segundo as entrevistadas pela pesquisa, essas são as principais demandas:
- 20% gostariam de programas de aceleração de carreira
- 17% desejam ver mais mulheres promovidas para cargos estratégicos
- 16% pedem flexibilização da jornada para equilíbrio entre vida pessoal e profissional
Segundo dados do Global Gender Gap Report de 2023, do Fórum Econômico Mundial, hoje o caminho para a paridade global é estimado em 131 anos e 53 anos na América Latina e no Caribe.
Para que o cenário mude no país, são necessárias mudanças estruturais como a implementação da licença-paternidade ampliada, que foi aprovada pelo Senado na quarta-feira, 4, e espera a sanção presidencial, além da legalização de políticas de reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidado.
“O trabalho do cuidado, ele não precisa necessariamente ser feito por mulheres. Não existe nada que justifique que só as mulheres podem cuidar da família, dos filhos, dos idosos e dos doentes”, pontua Ana.