Aos 29 anos, Victoria Caldini não apenas comanda uma confeitaria de sucesso na Vila Nova Conceição, na capital paulistana, como lidera uma reeducação sobre o que significa “comer bem”. A empresária transformou uma relação difícil com a comida na Canelle, negócio que atrai filas de espera, fisgando clientes que buscam sabor sem abrir mão da saúde.
A semente da loja, contudo, foi plantada muito antes de sua abertura oficial, em 2021. Aos 9 anos, Victoria enfrentou um distúrbio alimentar após passar mal com um doce, o que a levou a passar sete anos sem consumir açúcar. “Eu tinha medo de comer. Tudo o que eu comia, achava que ia passar mal”, relembra.
Isso, porém, não impediu sua introdução no mundo da culinária. Com um instinto empreendedor que já dava sinais desde os 14 anos, ela começou a vender cupcakes para os amigos na escola. “Eu ia na 25 de Março, comprava embalagem, fazia todos os doces e vendia”, conta.
Mas, foi a pandemia de 2020 que serviu de catalisador para sua profissionalização na área. Em casa, em vias de se formar em Administração de Empresas pela FGV-SP, Victoria começou a adaptar receitas clássicas, como a Banoffee, para versões que ela mesma pudesse consumir sem desconforto.
Sem nenhum emprego à vista e nem a possibilidade de continuar com seu trabalho como fotógrafa freelancer por conta do confinamento, Victoria decidiu começar a vender os doces que já produzia para a família. “Realmente começou como uma brincadeira. Nunca foi algo pensado do zero, com um plano de negócio. Foi uma sequência de fatores”, explica
O nascimento da Canelle
A transição de um passatempo para um negócio real aconteceu sob o olhar de seu pai, Walter Caldini, que mais tarde viria a entrar como sócio do negócio. “Você está na GV, todos seus amigos estão indo pro mercado financeiro e você vai fazer bolo?”, a questionou, na época.
Victoria, porém, estava disposta a provar a eficácia do negócio e o teste de fogo veio em abril de 2021, quando conseguiu faturar R$ 21 mil com a venda de ovos de Páscoa. “Eu falei: ‘Bom, agora eu acho que realmente temos um negócio'”, conta.
Até então, a produção era feita em sua casa com a ajuda da mãe, que cuidava das entregas. Com o lucro, conseguiu alugar a primeira casa no Brooklyn, comprou um forno e uma batedeira e contratou sua primeira confeiteira.
A busca por aperfeiçoamento não parou e, em 2022, Victoria foi para a França, onde se tornou a primeira brasileira a obter o diploma de “Inovação em Pâtisserie & Wellness” pela renomada escola Le Cordon Bleu Paris.
A expansão do negócio
A trajetória física da marca começou com um quiosque no Shopping Cidade Jardim, que operou por um ano e meio e serviu como vitrine para o público. “O mercado saudável no Brasil ainda era novo. As pessoas tinham preconceito e precisavam ver o produto para ter a aptidão de comprar”, explica.
A consolidação veio em 2024 com a abertura da loja conceito na Vila Nova Conceição, que hoje corresponde a 60% do faturamento da marca e vende cerca de 700 pedidos por mês, sendo que, no começo, quando ainda operava no WhatsApp, encerrava com cerca de 30 encomendas.
Hoje, além da confeitaria, a Canelle oferece desde saladas a brunch, com opções 100% sem glúten, sem lactose e sem açúcar refinado. “A gente nasceu como doces saudáveis, mas percebemos que para o cliente vir de manhã, à tarde ou à noite, precisávamos de um cardápio mais abrangente”, diz.
O concepção do cardápio
Mesmo com a expansão, a essência da marca permaneceu a mesma, com o astro da vitrine ainda sendo o Bolo Brownie, primeira criação de Victoria que mantém a receita original intocada.
O cardápio mescla releituras de clássicos, como beijinho, bolo de coco e banoffee, com criações autorais. A estratégia é democratizar o “wellness”, atraindo desde o cliente rigoroso com a dieta até aquele que busca apenas uma sobremesa saborosa, e que ainda está se aventurando nesse universo.
“A gente criou um produto tão gostoso que ele é apto para todo mundo. Uma família que tem uma pessoa celíaca não vem sozinha comer aqui, vem a família toda”, afirma. Com a previsão de abertura de uma segunda loja ainda em 2026, o sucesso da marca atraiu parcerias de peso com marcas como Havanna e Freeze, culminando em colaborações com a Givenchy Beauty e o Itaú.