“Próxima estação. Next station, Botafogo.” A voz que anuncia as paradas no MetrôRio faz parte da rotina de milhões de passageiros e vai além das plataformas cariocas. Presente também em linhas da ViaMobilidade e em aeroportos administrados pela Infraero, ela se tornou conhecida em diferentes cidades do país.
Por trás dos avisos está Zanna, cantora e compositora que construiu uma carreira na música popular brasileira, com indicações ao Grammy Latino.
Produtora musical, engenheira de som e empresária à frente do estúdio Zanna Sound, ela tem uma relação direta com a produção cultural e com projetos dentro e fora do Brasil.
“Às vezes acho que a música nasceu dentro de mim, porque desde criança, me aproximava dos instrumentos e cresci cercada por canções. Meus pais também gostavam, então a música sempre esteve presente”, conta.
Aos 12 anos, Zanna escreveu as primeiras composições, enquanto dava os primeiros passos como instrumentista, entre o violão e a flauta. Aos 14, já havia composto sua primeira música, mas a relação profissional com a música surgiu apenas aos 18 anos, quando entendeu que queria seguir também como cantora.
“Na época, havia um certo preconceito, aliás, acho que ainda existe, como se as cantoras fossem menos valorizadas no meio artístico. Eu era muito jovem e também pensava assim, achava que a voz não era algo interessante, então evitava”, detalha.
Mas algo mudou quando Zanna percebeu que poderia defender as próprias canções. “Não é apenas a minha voz. É a arte refletida em letras e melodias”, diz.
Ela passou a escrever, produzir e interpretar as próprias músicas. Até que a vontade de viver um grande amor a levou para o outro lado do Oceano Atlântico. A cantora deixou São Paulo e se mudou para a Itália. “Vendi o meu carro, um Fusca, que quase pegou fogo, para conseguir o dinheiro da passagem”, relembra.
Ao longo de uma década, ela viveu diferentes experiências culturais, passando por cidades como Veneza, Roma e Milão. “Foi na Itália que gravei meu primeiro disco e comecei a me apresentar em novos palcos.”
Zanna também passou a atuar como produtora musical, compartilhando a musicalidade brasileira. “Eu precisei ensinar o nosso ‘borogodó’ para eles, então fui aprendendo um pouco de tudo”, conta.
Neta de italianos, ela encontrou no país uma extensão da própria história, mas a vontade de experimentar novas sensações a levou ainda mais longe, aos Estados Unidos.
“Foram cinco anos morando em Nova York, período em que tive contato com outras culturas e ampliei o meu repertório musical. Ainda cheguei a me preparar para ir à Índia, mas mudei de ideia”, diz.
De volta ao Brasil
Decidida a morar no Rio de Janeiro, a escolha não foi consenso entre as pessoas ao seu redor, no entanto, a compositora tinha convicção do caminho que queria seguir.
“Eu sempre soube que tinha um propósito com o Brasil, então decidi voltar para casa”, afirma.
O retorno veio acompanhado de desafios. Ao chegar, percebeu que o espaço profissional que imaginava ainda não existia. Então resolveu criar a própria empresa.
Gravou um disco com Carlos Trilha e, em 2007, fundou a Zanna Sound para trabalhar com trilhas e produção musical, a primeira agência de sound branding da América Latina. “Uma proposta que vai além do entretenimento, entendendo a música também como estratégia e linguagem”, explica.
Além da voz
Zanna passou a percorrer a cidade com atenção, transformando a rotina em oportunidades de criação. “O Banco do Brasil foi meu primeiro cliente. Compus uma música de identidade sonora que ganhou relevância no país”, conta.
Esse olhar para o som também se estendia para o vai e vem do transporte público, condução que usava com frequência.
“Percebi que o MetrôRio tocava músicas clássicas, nada contra, mas não combinava com um dia de 40 graus no Rio de Janeiro”, diz.
Curiosa, procurou a administração da companhia, mas ao chegar, descobriu que não estava sozinha. “Outros passageiros também não se identificavam com o repertório”, afirma.
Zanna criou um projeto e o apresentou ao MetrôRio. Dois anos depois, fechou o contrato e passou a dar voz a um dos sistemas de transporte mais movimentados do país.
“Depois disso, outras empresas passaram a me procurar, e fui trabalhando com diferentes marcas. Mas cada projeto é único, porque cada lugar tem sua própria identidade”, diz.
Trabalhos autorais
Indicada três vezes ao Grammy Latino em 2017, entre elas na categoria de Melhor Música Popular Brasileira, Zanna lançou, em 2025, seu segundo álbum de estúdio, ‘Reflexo’. Com produção própria e coprodução de Alexandre Kassin, o disco reúne 12 faixas autorais que transitam entre a MPB e a poesia.
Entre elas está a canção “MetrôRio”, em que a artista transforma em música o ambiente que ajudou a consolidar sua voz. “Esse novo álbum é, de fato, uma extensão das vivências e experiências que carrego dos encontros que me transformaram”, concluiu.