Ela fez do lixo um negócio de impacto e faturou R$ 2,8 milhões em 2025

Somente no último ano, a SOLOS desviou mais de 2.000 toneladas de resíduos de lixões e aterros e gerou uma renda de R$ 1,2 milhão para os catadores

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Hoje, mantém relação com 75 cooperativas, mais de 7 mil catadores. Foto: Divulgação

Para Saville Alves, o destino de uma garrafa de vidro em vilarejos isolados como Caraíva, no sul da Bahia, ou em Atins, nos Lençóis Maranhenses, nunca foi apenas uma questão ambiental. É, antes de tudo, um desafio logístico, além de uma oportunidade econômica. À frente da SOLOS, startup de economia circular fundada na Bahia, ela construiu um modelo de negócio que limpa praias e grandes eventos enquanto transforma os resíduos em renda.

Antes de empreender, Saville percorreu o caminho tradicional em grandes corporações. Formada em Comunicação pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), ainda na faculdade, ela trabalhou na área comercial da Oi e, depois, passou três anos na Braskem, na área de relações institucionais e de desenvolvimento sustentável.

Foi ali, por volta de 2012, que começou a observar de forma mais crítica que, apesar dos programas existentes, a renda média dos catadores seguia extremamente baixa. “ Nessa época, eu comecei a trabalhar em um projeto junto a cooperativas através da empresa e comecei a olhar mais para a temática da reciclagem e da sustentabilidade”, conta.  

Paralelamente, Saville trabalhava como voluntária em comunidades atendidas pela ONG TETO, que atua na construção de casas em favelas. O contato com espaços sem saneamento básico, onde o  lixo e o esgoto se misturavam no cotidiano da população, mudou drasticamente sua visão.

“Você vê aquela água suja passando, as pessoas pisando, as crianças brincando, fazendo do esgoto uma piscina. Isso é muito violento. E ali surgiu uma intenção muito clara: como assim ninguém resolveu isso antes?”, relembra. 

A fundação da SOLOS: o “setor 2,5”

A inquietação virou projeto quando, aos 24 anos, ela decidiu fundar a SOLOS ao lado da amiga, Gabriela Tiemy. Durante mais de um ano, as duas mergulharam em editais, programas de aceleração e estudos sobre negócios de impacto. 

Nesse sentido, a proposta era criar um negócio do chamado “setor 2,5”: uma operação que combinasse a eficiência do setor privado com a intencionalidade social do terceiro setor. O processo de estruturação levou cerca de um ano e quatro meses.

O primeiro grande passo veio com a aprovação no edital Triggers, em 2017, voltado à aceleração de ideias, o que levou as fundadoras a passarem quase um ano em São Paulo, em contato com mentores do setor corporativo e de empreendedorismo social.

De volta a Salvador, em 2018, Saville e Gabriela começaram a operar em um setor ainda pouco explorado no Brasil, impulsionado pelos primeiros desdobramentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (2010).

O destino dos resíduos 

Com atuação em 10 estados, hoje a SOLOS possui três grandes frentes. A primeira envolve conteúdos e experiências educativas sobre reciclagem, circularidade e descarte correto, desenvolvidas em escolas, praias, shoppings e espaços públicos. 

A empresa também atua com reciclagem em grandes eventos, sendo o Carnaval a principal ação desenvolvida ao longo do ano. “Eu nasci numa sexta-feira de Carnaval, então já tem 5 anos que eu não passo meu aniversário sem estar trabalhando”, comenta. 

Desde 2020, a empresa monta estruturas de coleta seletiva durante os blocos, mobilizando cooperativas e catadores para garantir a destinação correta dos resíduos. Só no último ano, a operação no Rio de Janeiro retirou 85 toneladas de resíduos das ruas em seis semanas, enquanto em Salvador foram mais 140 toneladas coletadas em apenas sete dias.

Além disso, a SOLOS também desenvolve sistemas inteligentes de coleta seletiva permanente. A operação começa nas ruas, conversando com moradores e estabelecimentos, estruturando uma coleta de porta em porta gratuita. 

É nesse contexto que surgiu o Vidrado, programa voltado à coleta de vidro em destinos como Caraíva (BA) e Atins (MA), sendo retirado por quadriciclos e levado a uma central de triagem onde ganha valor de mercado, e o Roda, serviço de “delivery da reciclagem” que funciona por agendamento e acaba de receber recursos via Lei de Incentivo à Reciclagem. 

A atuação é voltada para locais de difícil acesso, onde caminhões de lixo convencionais mal conseguem transitar. “Cada programa é individualizado. Precisamos entender e respeitar a localidade, o contexto da cidade e as pessoas que estão ali”, explica.

Alcance nacional

Segundo o último relatório da Abrelpe, 32% dos municípios ainda despejam seus resíduos em lixões a céu aberto. “A gente tinha uma meta de extinguir os lixões em 2024, mas ainda estamos com um cenário muito diferente na realidade. Então, para nós, não é só sobre reciclagem, mas ocupar um vácuo de acesso”, afirma.

Ao longo de oito anos, a SOLOS construiu uma operação de alcance nacional. Hoje, mantém relação com 75 cooperativas, mais de 7 mil catadores e uma equipe que varia entre 30 e 100 pessoas ao longo do ano, a depender das operações. Desde a fundação, a empresa já coletou cerca de 2 mil toneladas de resíduos recicláveis.

Em 2025, foram R$ 1,2 milhão em renda direta e R$ 1,5 milhão em renda indireta para cooperativas e catadores, totalizando R$ 2,79 milhões. No mesmo período, a empresa fechou 24 contratos com 18 empresas e aprovou cerca de R$ 5 milhões em editais e financiamentos, incluindo recursos do Banco do Nordeste e de organizações internacionais.

“O catador precisa virar dado”

Em 2025, Saville participou da COP como representante da SOLOS e da Abelore (Associação Brasileira de Logística Reversa), da qual é presidente, integrando painéis, articulações internacionais e debates sobre financiamento climático. 

Porém, mais do que operar projetos, Saville defende que a reciclagem só se torna sustentável quando está integrada às políticas públicas. Para ela, é preciso garantir a inclusão, formalização e mobilidade social para quem já sustenta a cadeia na prática. 

“Mais de 90% do material reciclado no Brasil passa pelas mãos dos catadores. Hoje, porém, ele não está dentro dos censos e não é visto como uma profissão em muitos recortes. Quando você vira dado, o poder público tem insumos para tomar decisões e criar legislações”, comenta.

Nesse sentido, entre os próximos passos da empresa está o desenvolvimento de programas voltados à profissionalização e formalização de catadores autônomos, além de aumentar a operação da empresa para as  cinco regiões do país.

“A política pública permitiu que eu, como mulher, ocupasse este espaço hoje. Agora, precisamos usar essa mesma força para garantir que o impacto da reciclagem chegue na porta de quem realmente faz o trabalho acontecer”, finaliza.