Prestes a completar 40 anos, Aline Odara é o nome por trás do Fundo Agbara. Com um impacto direto em mais de 20 mil mulheres, o primeiro fundo de investimento voltado para mulheres negras no Brasil hoje trabalha com fundações globais, como a Chanel, e negocia aportes milionários sob sua liderança.
Mas sua trajetória com o empreendedorismo começou muito antes, ainda no quintal de sua casa, em Campinas, São Paulo, onde aos 10 anos já organizava as crianças do bairro e geria sua própria “escolinha”. O que parecia brincadeira se tornou, na verdade, junto com o ativismo, um esboço para sua formação em Ciência Sociais, em 2017, pela PUC Campinas, seguida por uma graduação em Pedagogia, pela Unicamp.
Mas, isso só aconteceu quando ela tinha 27 anos, através de uma bolsa do Prouni, antes disso sua trajetória foi marcada pelo “viver um dia após o outro”, com uma sucessão de empregos que, na época, pareciam desconexos.
Seu primeiro trabalho com carteira assinada foi ainda aos 18 anos, como atendente da Claro em um call center, seguido por trabalhos como assistente administrativa da Cielo e secretária, na Revlon.
“Minha vida profissional tinha sido uma grande mistura de diferentes ocupações que não se conectavam e aquilo me angustiava. Hoje faz muito sentido: eu precisava de todas aquelas habilidades de venda e negociação para o Agbara”, relembra.
O busca por estabilidade
A virada aconteceu em março de 2020, após obter o diploma como pedagoga. Desempregada há um ano, dois dias antes do lockdown do Covid, em 2020, Aline foi chamada para assumir um cargo concursado como professora de Educação Infantil pela prefeitura de Campinas. Pela primeira vez na vida, ela tinha o que chama de “o privilégio de não pensar na sobrevivência imediata”.
Com o salário garantido, ela pôde olhar para o lado e, em setembro daquele ano, ao perceber que a pandemia estava afetando a renda das mulheres negras, decidiu iniciar uma vaquinha online com o objetivo de levantar dinheiro para a compra de cestas básicas e aluguéis atrasados.
“Pensei: ‘Bom, se 20 amigos doarem R$ 20, eu terei R$ 400 para fortalecer uma mulher negra todo mês, o que é melhor do que ficar pedindo dinheiro sempre”, conta.
Em três meses, a rede de doadores recorrentes saltou de 60 para quase 300 pessoas e Aline percebeu que havia descoberto uma “dor” do mercado: as pessoas queriam doar, mas não sabiam como chegar na base.

Foto: Divulgação
A expansão do Fundo
Assim nasceu o Fundo Agbara. O crescimento foi exponencial e, em menos de seis anos, a iniciativa captou mais de R$ 20 milhões com doações, dos quais 70% vêm de investidores internacionais.
Segundo relatório da World Economic Forum, as mulheres negras receberam apenas 0,34% do total de financiamento de venture capital em 2021, realidade que é ainda pior para ás que moram em áreas afastadas das metrópoles. Com isso em mente, hoje o foco prioritário são mulheres das regiões Norte e Nordeste.
Com uma equipe de 23 funcionários, o Fundo já impactou mais de 20 mil mulheres em um ecossistema que não entrega apenas ajuda financeira, mas acompanhamento estratégico e cursos de formação, sendo estruturado em três frentes de investimento: negócios de mulheres negras, aceleração de carreiras e fortalecimento de organizações sociais. “O mercado percebeu que investir em nós não é caridade, é inteligência econômica”, conta.
Os planos para a rede
A construção desse império filantrópico, porém, teve um preço pessoal. Recentemente nomeada como uma das 50 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo na filantropia e impacto social pela ONU, Aline foi diagnosticada com burnout. “Trabalho, não raramente, 15 horas por dia. Entendi que eu preciso desacelerar, quero ver o fruto do que plantei”, diz.
Os planos para o futuro da iniciativa, porém, não param de girar. O foco agora é a expansão para Salvador com o projeto “Banco do Bem Viver”, uma iniciativa que visa criar uma estrutura de crédito e suporte às empreendedoras do território.
“As transformações que conquistamos ao longo dos anos foram feitas nas comunidades e geralmente lideradas por mulheres negras. A maioria dos lares são de mães solos, então esses programas territoriais vêm para provar que a gente pode fazer muito com recurso e poder de decisão”, comenta.