Cofundadora e diretora operacional da EcoCiclo, startup que aposta na fabricação de absorventes biodegradáveis, a engenheira química Adriele Menezes atua na produção e mobilização comunitária da empresa desde 2018. Com um investimento inicial de 10 mil reais, hoje a marca também promove debates sobre educação menstrual em comunidades vulneráveis, além de ensinar as mulheres a produzirem seus próprios absorventes de pano.
Natural de Salvador, Adriele começou sua trajetória profissional ainda na UNIBAN (Universidade de Salvador) no curso de Engenharia Química, e passou por gigantes industriais como Ambev, BASF e Dow, atuando como assistente e técnica de produção.
Paralelamente, também atuava de forma ativa com engajamento social em organizações como a AIESEC e o programa Mulheres do Amanhã, além de se envolver em projetos nas próprias empresas em que trabalhou. “Sempre me conectei com projetos e ações sociais. Mesmo trabalhando na indústria, que é um espaço menos atrativo para esse tipo de debate, eu já atuava em grupos de afinidade de mulheres e de pessoas LGBTs”, relembra.
A virada aconteceu em 2018, quando Adriele foi convidada pelas sócias, Helen Nzinga e Patrícia Zanella, para integrar o programa de liderança ProLíder com o desafio de conceber um negócio capaz de impactar mais de um milhão de pessoas.
E foi uma cena cotidiana que deu norte ao projeto: ao fazer compras no mercado, Helen presenciou uma mulher contando moedas para tentar comprar um absorvente. Daquela lacuna, nasceu a ideia de democratizar o acesso à saúde menstrual de forma sustentável.
Inovação e sustentabilidade
Feito de fibra de bambu, celulose e cola à base de água, o absorvente da EcoCiclo tem como mote se decompor em apenas seis meses, um contraste drástico com os 500 anos necessários para os produtos convencionais.
Sem capital inicial, a jornada para chegar a essa fórmula exigiu anos de pesquisa e parcerias com o SENAI e a Universidade Federal da Bahia para testes de absorção e tração.
“Aqui no Brasil não existia esse produto, então só tinham produtos internacionais, que quando chegavam no mercado eram vendidos por um valor muito maior, de R$ 50 a R$ 60. Nossa busca foi para chegar em um valor que fosse razoável”, conta.
O primeiro investimento semente, de 10 mil reais, vindo da incubadora Vale do Dendê, foi crucial para a formalização da empresa, que aconteceu em 2019. Mais tarde, em 2021, o projeto também contou com o apoio da Universidade de Minnesota, da qual receberam um financiamento de 100 mil reais.
Com isso, após os primeiros três anos dedicados exclusivamente à pesquisa, regularização e patenteamento, a empresa finalmente começou a produção. “Nós contratamos costureiras para fazer a confecção como não tínhamos recurso para fazer de forma industrial. Hoje, a ideia também é atuar com a geração de renda nas comunidades”, explica.
O modelo de negócio
A empresa opera em três ecossistemas: produção, educação e mobilização. Atualmente, a EcoCiclo atua sob demanda para grandes corporações focadas em ESG, como a Black Rock e o Instituto RME (Rede Mulher Empreendedora), com uma produção de até 2 mil produtos por mês.
Além disso, a empresa leva educação menstrual a regiões remotas, como em Roraima e Amazonas, ensinando mulheres a produzirem os seus próprios absorventes de pano como ferramenta de subsistência econômica e forma de autonomia.
A empresa realiza visitas prévias para entender a realidade do local antes de iniciar a parte logística, que envolve o transporte de máquinas de costura e dos tecidos. Durante cerca de uma semana, a equipe oferece uma formação intensiva desenhada para que, independentemente do conhecimento prévio em corte e costura, cada participante consiga sair de lá com pelo menos três absorventes prontos.
“Nós temos uma cartilha menstrual, então quando a empresa faz esse movimento para nós fazermos doação, nós levamos os absorventes e fazemos toda a explicação do ciclo menstrual, das datas, dos hormônios e de como acompanhar”, conta.

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O futuro do “menstrual care lifestyle”
Com um faturamento que já ultrapassou a marca de 1 milhão de reais e um impacto direto em mais de 17 mil pessoas, Adriele e suas sócias se preparam para o lançamento do próprio e-commerce, previsto para abril de 2026.
Com participações na COP 30, palestras na ONU e reconhecimento internacional pelo seu impacto social, a startup também foi a ganhadora nordestina do Prêmio Mulheres Inovadoras, da Finep, na categoria de Tração em 2025.
Entre os próximo passos, o principal é a expansão da marca para uma linha completa de “menstrual care lifestyle”, como ela mesma diz, incluindo calcinhas, maiôs e shorts absorventes. “Queremos nos posicionar como uma empresa que oferece produtos menstruais e ser referência dentro de um estilo de vida com cuidado menstrual”, explica.