Se você buscar pelos botecos mais tradicionais de São Paulo, é provável que encontre nomes como “Bar do Luiz” ou “Bar Léo”. Ocupar a fachada e o comando de um bar ainda é um desafio para as mulheres. Mas esse não é o caso de Mariele Horbach, empresária que faturou R$ 17 milhões em 2025 com espaços inspirados nos botecos cariocas.
Natural de Encantado (RS) e prestes a completar 42 anos, ela precisou de muitas tentativas para chegar a esse patamar. Ainda aos 18 anos, após o falecimento de seus pais, Mariele mudou-se para o Rio de Janeiro e foi lá que abriu as portas para o universo da gastronomia.
“Sempre brinco que acho que quando me geraram, eu já sabia que eu ia trabalhar na cozinha. Muitas vezes as crianças iam brincar e eu preferia ficar na cozinha com a minha avó e minha mãe”, relembra.
Sua primeira experiência profissional se deu em um restaurante comandado por seu cunhado, no qual trabalhou na cozinha enquanto cursava direito na Universidade Cândido Mendes. Em busca de maior estabilidade financeira, prestou concursos para o TJ, o TRE e a Defensoria Pública do Rio nesse período, mesmo não se enxergando na área.
A mudança para a capital paulista
A virada ocorreu quando Mariele conheceu seu atual marido, André Silveira, e se mudaram para São Paulo, em 2012, após ele receber uma proposta de trabalho. Quase instantaneamente, eles identificaram um nicho ainda inexplorado: os botecos cariocas.
Pensando em atender pessoas que, assim como eles, chegavam na capital por conta da situação cada vez mais perigosa da cidade e em busca de oportunidades no mercado, eles decidiram abrir o “Garota da Vila”, na Vila Olímpia.
A escolha da localização e o estilo do bar, no entanto, colidiram com o público, que não estava acostumado a ambientes tão despojados. “Começamos em um dos bairros mais caros, chiques e ricos de São Paulo, então eles já estavam acostumados com um serviço mais ‘engessado, com os garçons parados do lado com as mãos para trás’”, relembra.
Desafios de tirar o negócio do papel
O início foi repleto de desafios, principalmente financeiros. A operação de 250 metros quadrados era ambiciosa para a pouca experiência e durante os três primeiros anos o negócio funcionou no vermelho, se mantendo firme por empréstimos familiares.
Na época, André ainda trabalhava como publicitário em Pinheiros, de onde saía correndo para ajudar Mariele no horário de pico durante o almoço. Ela, no entanto, vivia uma rotina exaustiva, gerindo a operação das 6h da manhã até, frequentemente, depois da meia-noite.
O negócio só começou a engrenar quando o casal percebeu que a única saída era apostar todas as fichas no bar. André deixou seu emprego para focar na comunicação e na recepção dos clientes, enquanto Mariele assumiu integralmente a gestão da cozinha.
Em apenas dois anos, o negócio saiu do prejuízo e quitou todas as dívidas. “A gente não tinha um plano B, a gente nunca teve um plano B, era o garoto da Vila tinha que dar certo, era o nosso único plano”, conta.
A expansão da rede
O que começou como um plano arriscado há 13 anos, operando em um nicho totalmente novo e com grandes chances de dar errado, hoje se transformou no Grupo Hungry, que expandiu para três bares espalhados pela cidade.
Com as finanças estabilizadas no quinto ano, eles abriram o ‘Garota da Chácara’, na zona sul, e o ‘Bar Jobim’, em Moema, que nasceu como uma pequena porta de 60 metros quadrados inspirada nos botecos raiz e apertados do Rio.
O sucesso foi imediato e, em 2020, mesmo com as restrições da pandemia, quando uma loja de cafeteria vizinha ao Jobim desocupou eles decidiram expandir pela terceira vez. Após venderem o carro e sacarem o restante das economias, conseguiram alugar o espaço.
Hoje, ele abriga 200 pessoas em pé, atendendo um público composto 75% por cariocas. Ao todo, o faturamento do grupo já chegou a R$ 17 milhões em 2025, com um crescimento de 35% das vendas somente no primeiro trimestre deste ano. “Quando você é empreendedor, você fala: ‘Não sei como vamos fazer, mas vamos dar um jeito'”, brinca.
Carioca “de verdade”
Diferente dos bares paulistanos, o grupo preza por um lifestyle mais descontraído. “Nós não somos bares paulistanos que vendem uma experiência carioca, nós somos cariocas que vendem experiências cariocas”, define.
Com um cardápio autoral, eles não possuem delivery e 95% das receitas remetem à sua memória afetiva ou a pratos clássicos do Rio, como o filé à Oswaldo Aranha e a famosa coxinha de pernil. “A gente não quer vender só um frango grelhado dentro de uma caixinha bonita, a gente quer vender a experiência”.
A decoração também auxilia no teletransporte, oferecendo um chopp de cortesia para quem vai de chinelos Havaianas. Além disso, a trilha sonora é restrita ao samba, bossa nova e chorinho. “O pessoal pede pra colocar sertanejo, aí não dá. A nossa música tem que fazer com que você se lembre do Rio de Janeiro”, conta.
Uma mulher à frente de um bar
Hoje, Mariele atua como chef executiva e lidera uma equipe de 85 funcionários em que as mulheres ocupam 85% dos postos na cozinha. Porém, ser uma mulher em um cenário no qual grande parte dos donos de bares, principalmente de botecos, são homens, ainda é uma raridade.
“A maioria dos nomes de bares são o ‘Bar do Marcelo’, ‘Bar do João’, ‘Bar do Bruno’, mas você não vê o “Bar da Mari’. E às vezes somos nós que ficamos na cozinha, mas não temos o nome nas fachadas”, comenta.
Um dos motes de sua atuação é justamente tornar esses ambientes mais acolhedores às mulheres para que se sintam à vontade para beber sozinha ou em grupos de amigas. “De uns dois anos para cá, esse público cresceu muito graças a campanhas de segurança, treinamentos da brigada e, principalmente, por verem mulheres no comando”, explica.
Expansão em meio à Copa
No posto de embaixada oficial do Fluminense em São Paulo, a rede já se consolidou na transmissão de jogos e eventos esportivos. Em 2026, porém, o ano promete trazer recordes de vendas. “No primeiro semestre nós vamos praticamente faturar 60 ou 70% já do que faturamos no ano passado, por causa da Copa do Mundo”, conta.
A busca por reservas, especialmente por pessoas que trabalham nas proximidades e querem assistir aos jogos após o expediente, já está altíssima para os dias em que a seleção brasileira irá participar.
A correria dessa época é tanto que adiou, por enquanto, os planos de expansão do grupo para o segundo semestre. “Nós temos a pretensão de espalhar os ‘garotas’ por São Paulo, já temos oito marcas registradas. O primeiro que está no radar é o ‘garota de pinheiros’, mas queremos expandir para cada bairro que acharmos que cabe um ‘garota’”, comenta.