Lívia Viana transformou o que seria apenas uma intermediação de serviços em um ecossistema de autonomia feminina. Hoje, à frente da Ela Faz, plataforma de qualificação profissional voltada a mulheres no setor civil, a empreendedora maranhense já chegou a faturar R$ 4 milhões com o negócio em 2024.
Mas sua trajetória começou muito antes do canteiro de obras. Criada em uma casa que incentivava o trabalho desde cedo, ela vendia bombons de cupuaçu e bacuri na escola e, ainda aos 18 anos, recebeu uma bicicleta para que conseguisse dar aulas de natação e conquistar seu próprio dinheiro enquanto estudava.
Mais tarde, cursou administração na UEMA (Universidade Estadual do Maranhão) e trilhou uma carreira de uma década no setor bancário, passando por instituições como Bradesco e Itaú Unibanco, onde começou como inspetora de qualidade e logo foi promovida à gerente do setor. Tudo isso enquanto cuidava de sua filha, que teve aos 21 anos.
O surgimento da Ela Faz
A transição para a construção civil ocorreu em 2011, quando surgiu a oportunidade de gerir a sociedade da Predmix, que hoje é uma das maiores indústrias de pré-moldados no Maranhão, ao lado de seu marido, José Ribamar Viana.
Para adentrar no setor, Lívia voltou para os estudos e deu início ao curso de engenharia civil na UNISULMA, em Imperatriz (MA). Foi nesse ambiente, majoritariamente masculino, que ela começou a entrar em contato com mulheres que queriam se especializar, mas não encontravam portas abertas para adentrar e se desenvolver na área.

Trabalhadoras beneficiadas pela plataforma Ela Faz, do Maranhão
Em 2019, enquanto atuava como diretora do Sinduscon (Sindicato da Construção Civil), essa demanda também começou a vir por parte das associações e secretarias com as quais ela mantinha contato. “Me deu esse start de intermediar uma pedreira ou uma pintora para aquela mulher que está precisando de ajuda, mas que tem medo de receber um homem em casa”, conta.
Pensando nisso, em 2020, em plena pandemia, Lívia criou a “Ela Faz”. Inicialmente pensada como uma intermediação de mão de obra, a empresa rapidamente evoluiu para uma plataforma de educação com o intuito de ajudar desde o desejo de reformar o próprio banheiro até a necessidade de escapar da violência doméstica com a autonomia financeira.
O crescimento do negócio
Após um início tímido em 2020, o faturamento da empresa saltou de R$20 mil para cerca de R$ 2 milhões em 2023 e, em 2024, viveu seu auge com um valor angariado próximo aos R$ 4 milhões.
Impulsionado por grandes contratos de obras e cursos em larga escala, atualmente, a receita se equilibra entre a prestação de serviços de reforma, com mão de obra 100% feminina, e os treinamentos corporativos.
O modelo de negócio é feito a partir de parcerias com grandes empresas, como a MRV, Votorantim, Instituto Alcoa e o próprio Governo do Estado do Maranhão, que contratam a plataforma para qualificar mulheres nas comunidades onde atuam, com o objetivo de absorver essa mão de obra mais tarde.
Os cursos são gratuitos e duram cerca de dois meses (180 horas) e possuem uma metodologia dividida entre aulas teóricas e práticas. “Geralmente começamos os cursos com 30 alunas e formamos 25, sendo que tem cursos que não conseguem formar nem 10. Conseguimos ter essa retenção porque temos um acompanhamento com um olhar de acolhimento com essas mulheres”, comenta.
Expansão e escola técnica
Profissionalizando desde mães solo de 40 anos até jovens em busca do primeiro emprego, a operação da “Ela Faz” já alcançou 19 cidades do país simultaneamente. Entre os planos de Lívia para 2026 está a expansão nacional e transformar o modelo de cursos em algo mais sólido, como uma escola de qualificação técnica.
Segundo registros do Sistema Confea/Crea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), atualmente, apenas 20% dos profissionais cadastrados no setor são mulheres. E, por mais que elas sejam 52% dos candidatos no ENEM, apenas 18% delas optam por cursos de Engenharia, Agronomia ou Geociências.
“Durante o curso, temos um acompanhamento social para entender se a aluna está indo pro curso ou não e o que que está faltando, se não tem dinheiro para o ônibus… tudo que acontece, temos um levantamento para que possamos acompanhar o desenvolvimento e para que essa mulher vá até o final do curso”, explica.