Para muitas meninas, o cotidiano escolar é marcado por uma “vigilância” constante sobre seus corpos e comportamentos, segundo a pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, realizada pela organização Serenas em parceria com o Plano CDE e a Nova Escola.
O estudo expõe que, embora as meninas frequentemente apresentem melhor desempenho acadêmico, elas enfrentam um custo emocional desproporcional para permanecerem na escola.
Um dos maiores desafios apontados pela pesquisa é a naturalização da VBG (Violência Baseada no Gênero). Situações como olhares invasivos, comentários sobre o corpo e interrupções em debates, o chamado manterrupting, são frequentemente tratadas como “brincadeiras” ou questões menores.
Enquanto os coordenadores tendem a enxergar apenas casos extremos de violência física, as meninas relatam que a agressão começa muito antes, com o assédio verbal e o controle social.
Segundo o estudo, 51% dos professores admitem ter presenciado colegas ou alunos fazendo comentários machistas sobre o corpo das estudantes. Nesse caso, as meninas negras e gordas são os maiores alvos dos ataques.
O impacto no futuro e na saúde mental
O “sonhar” do título não é metafórico. A violência de gênero impacta diretamente a trajetória escolar: 86% dos professores reconhecem que a VBG afeta negativamente o desempenho e a permanência das meninas no ensino, destes, 71% afirmam já ter testemunhado os danos causados por essas violência. Os efeitos vão desde o desenvolvimento de ansiedade e depressão até o abandono escolar e a gravidez precoce.
A pesquisa também mostra que muitos professores sentem-se despreparados: 45% citam a falta de formação como o principal obstáculo para lidar com essa questão, enquanto 38% apontam a ausência de protocolos claros nas secretarias de educação.
Além disso, há uma resistência estrutural, com a ideia de que a escola “não é lugar de falar de gênero” ou que esses temas pertencem exclusivamente à família, embora 99% dos professores defendam que a escola deve atuar na prevenção da violência de gênero.
Dentre os entrevistados, 77% deles admitem precisar de mais informações sobre o tema, mas não recebem o suporte necessário e apenas 35% dos professores relataram a existência de ações específicas voltadas para o combate às violências de gênero.
Caminhos para a mudança
Para a equipe da Serenas, reconhecer e nomear essas violências é o primeiro passo para que possam ter transformações reais. O relatório defende a transformação da escola em um lugar seguro, envolvendo não apenas punição dos agressores e a implementação de normas mais rígidas, mas o suporte para os educadores também.
Lançado em novembro de 2025, o estudo combinou métodos qualitativos e quantitativos, ouvindo estudantes, professores e gestores de todo o Brasil para mapear como o machismo estrutural se faz presente nas escolas, com 98 participantes e 1.383 professores.