Em meio a um cenário marcado por desigualdades e insegurança com a situação política, as mulheres aparecem como as mais conectadas a pautas progressistas na América Latina e no Caribe. É o que mostra a pesquisa “Juventudes: Assunto Pendente”, baseada em entrevistas com cerca de 22 mil jovens de 14 países, incluindo o Brasil.
O estudo mostra que, embora compartilhem das mesmas dificuldades, como desemprego, precarização do trabalho e insegurança, as mulheres tendem a se posicionar mais a favor de agendas ligadas a direitos sociais, igualdade de gênero, diversidade sexual e políticas públicas universais. Ainda assim, essa inclinação não se traduz automaticamente em maior confiança nos partidos ou nas instituições democráticas.
As jovens fazem parte da geração mais escolarizada da história da região. Em quase todos os países analisados, mais de 47% dos jovens concluíram o ensino médio. O acesso ao ensino superior, no entanto, segue desigual e, em alguns contextos, permanece concentrado entre as jovens de classes sociais mais altas.
No mercado de trabalho, o cenário é ainda mais desafiador. Em 9 dos 14 países, menos de 30% dos jovens entre 18 e 35 anos têm acesso a empregos formais ou temporários. Entre as mulheres, a informalidade é mais frequente, especialmente entre as de baixa renda.
Descrédito às instituições
Apesar das dificuldades, a democracia continua sendo amplamente valorizada, com 58% a 73% dos jovens afirmando que ela é o melhor sistema de governo. Ao mesmo tempo, o estudo aponta que em 11 dos 14 países, menos de 30% estão satisfeitos com o funcionamento atual das instituições.
A desconfiança recai especialmente sobre os partidos políticos. Em 10 dos 14 países, mais da metade deles afirma não confiar nessas instituições e há uma concordância generalizada de que líderes fortes seriam mais eficazes do que partidos e instituições tradicionais.
Quando o foco recai sobre as agendas políticas, as mulheres demonstram maior apoio a temas como educação e saúde públicas gratuitas, proteção ambiental, educação sexual e o direito à livre decisão sobre orientação sexual e identidade de gênero. No entanto, elas também apresentam visões mais conservadoras em temas ligados à família, religião e costumes.
Política além do voto
Mesmo distantes dos partidos, a participação eleitoral segue alta em alguns países como Equador e Chile, onde 86% afirmaram ter votado nas últimas eleições.
Além disso, entre 34% e 50% dos jovens demonstram disposição para atuar em organizações sociais, mesmo sem filiação partidária. Protestos e ativismo digital ganham destaque, especialmente no Chile e Panamá.
Segundo a pesquisa, para muitas mulheres, fazer política também significa atuar no cotidiano com a organização de redes de apoio e a luta por segurança, trabalho, educação e acesso a serviços básicos.
Por fim, o relatório destaca a urgência de políticas públicas inclusivas e de uma renovação das formas tradicionais de participação, como partidos e sindicatos. Nesse sentido, a compreensão do protagonismo feminino passa por reconhecer que muitas mulheres já estão politicamente engajadas, mesmo que fora das instituições.