Um novo projeto divulgado recentemente pela Northeastern University, de Boston, revela o impacto da falta de reconhecimento e validação à pesquisas e descobertas científicas realizadas por mulheres ao longo da história. E como, se suas contribuições tivessem sido consideradas, a ciência teria avançado muito mais rápido.
O estudo toma como figura central Margaret Cavendish, duquesa do século XVII, escritora e uma das primeiras mulheres a circular entre comunidades científicas e publicar sob seu próprio nome em um período em que mulheres eram silenciadas ou apagadas pela sociedade.
Apesar de ser discutida e, de certa forma, conhecida na época, Margaret raramente foi levada a sério. Apelidada de “Mad Madge”, ou Madge Brava, pelos seus pares, seu trabalho era visto mais como uma excentricidade do que como contribuição intelectual relevante, explica Sarah Connell, diretora associada do NULab para Humanidades Digitais e Ciências Sociais Computacionais.
Em conjunto com os filósofos Peter West e Brian Ball e a especialista em literatura inglesa Julia Flanders, a equipe buscou medir, com métodos digitais, como os argumentos de Margaret circularam, ou foram bloqueados, dentro da Royal Society, a academia científica mais antiga do mundo em atividade.
Em 1667, ela foi a primeira mulher convidada para uma reunião da instituição. Ainda assim, as mulheres só foram aceitas como membros quase três séculos depois, em 1945, e nunca estiveram entre os líderes.
O que teria acontecido se a ciência tivesse ouvido Margaret
O estudo criou simulações históricas para comparar dois cenários: o mundo real, no qual a cientista foi marginalizada, e um em que sua importância social era mais forte e suas ideias, mais respeitadas. Os resultados constataram que toda a Academia Real teria avançado de forma significativamente mais rápida com sua contribuição.
“Uma das coisas que surgiu da simulação foi que, quando ela está mais conectada com esses personagens, na verdade, não é apenas Cavendish que se sai melhor em chegar à verdade mais rapidamente. … Descobrimos que a Royal Society, como comunidade, chega à verdade mais rápido — na verdade, significativamente mais rápido”, pontuou Brian Ball para a The Northeastern Global News.
Realizado através da análise das versões digitalizadas e enriquecidas dos textos de Cavendish criadas pela equipe, o estudo mapeou sua produção e influência, tornando possível reconstruir e entender como se deu o reconhecimento de pesquisas realizadas por mulheres na época.
Sobre a pesquisa, a física e integrante da Royal Society Dame Athene Donald, lembrou em um simpósio realizado no 27 de outubro que, mesmo hoje, o apagamento não é totalmente passado. Segundo ela, mulheres ainda têm seu crédito tomado, lidam com maior exclusão e carregam a herança de um campo dominado por homens.
“É muito fácil para as pessoas acreditarem que não existem mais problemas, mas esse não é o caso. Há muito preconceito sutil, desde o nascimento”, pontuou.