Estudos mostram que mulheres são mais penalizadas por usar IA no trabalho

Estudo revela que ao utilizarem IA no trabalho, elas são avaliadas como menos competentes do que homens com o mesmo desempenho

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Mulher são mais prejudicadas em avaliações pelo uso de IA, segundo estudo Foto: Freepik

Em um experimento recente conduzido por pesquisadores das universidades de Pequim e Politécnica de Hong Kong e publicado em 2025, um grupo de engenheiros de software de uma empresa de tecnologia foi convidado a avaliar a qualidade de um trecho de código. Embora todos os avaliadores tivessem recebido exatamente o mesmo conteúdo, os resultados revelaram que as mulheres que utilizaram inteligência artificial para gerar o código foram vistas como significativamente menos competentes do que os homens, mesmo quando o produto final era idêntico. O estudo escancara um padrão já presente no ambiente de trabalho: a desvalorização e desconfiança imposta às mulheres, agora estendida ao uso de novas tecnologias.

Enquanto a qualidade do código foi avaliada de forma semelhante em todos os cenários, as avaliações sobre a competência do programador variaram significativamente. Mulheres que usaram IA receberam notas 13% mais baixas, contra um prejuízo de 6% para os homens. Entre os avaliadores, o grupo mais rígido foi o dos homens que não utilizavam IA, eles foram 26% mais duros ao julgar mulheres que haviam recorrido à tecnologia, mesmo diante de resultados idênticos aos dos homens.

Em um contexto onde o uso de IA tem sido incentivado por empresas como ferramenta de produtividade e inovação, o estudo revela uma contradição: ao usarem a tecnologia conforme orientado, mulheres são punidas com a dúvida, não sobre seu trabalho, mas sobre sua capacidade.

“A assistência da IA é apresentada como uma ‘prova’ de sua inadequação, em vez de evidência do uso estratégico de ferramentas”, explicam os pesquisadores em artigo publicado pela Harvard Business Review.

O medo de parecer incompetente

Os dados ajudam a explicar um outro fenômeno observado na empresa de tecnologia analisada: apesar da campanha por parte dos superiores para adesão ao uso de IA, apenas 31% das mulheres engenheiras adotaram a ferramenta, contra 41% dos homens. Em entrevistas posteriores, mais mulheres relataram receio de que a adoção da IA diminuísse a percepção de sua competência por parte de gestores e colegas, afetando diretamente na decisão de utilizá-las.

Evitar o uso de IA, nesse contexto, é um comportamento racional. Se a ferramenta, em vez de valorizar o desempenho, acaba reforçando dúvidas sobre a competência, faz sentido que muitas mulheres optem por não utilizá-la e, paradoxalmente, abrir mão de algo que aumentaria sua produtividade. Um dilema que não se apresenta da mesma forma para os homens. 

O que realmente conta nas avaliações?

Esse não é um caso isolado. A desvantagem na avaliação das mulheres já havia sido registrada em diversos outros contextos, mesmo antes da popularização da IA. Em 2024, um estudo publicado no Social Psychology Quarterly revelou que mulheres que trabalham 60 horas semanais são recompensadas com muito menos frequência do que homens que fazem a mesma jornada, tendo 8% menos chances de recebê-las. A justificativa dada pelos avaliadores é de que, para eles, o excesso de trabalho é sinal de dedicação. Já para elas, é um sinal de incompetência.

Outro estudo, conduzido pelas universidades de Minnesota, Yale e MIT, também mostrou essa desigualdade. A pesquisa analisou dados de desempenho de quase 30 mil funcionários e mostrou que as mulheres, mesmo com resultados passados considerados superiores, ainda assim recebem notas mais baixas de “potencial futuro” nas empresas. O estudo constatou que as funcionárias tinham 33% mais probabilidade de receber maiores pontuações de desempenho, mas 8,3% menor em relação ao futuro na companhia. Constatando que, mesmo quando apresentam trabalho semelhante, ou superior, ainda assim são subestimadas em avaliações que deveriam ser baseadas em sua capacidade.