Antes de ser reconhecida pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes em Inteligência Artificial no mundo, Ana Helena Ulbrich já havia construído uma carreira na área da saúde. Doutora em química, formada em farmácia e com especialização pela Fiocruz, ela viveu de perto a assistência hospitalar.
Foi na ala de controle de infecção do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que Ana enfrentou os maiores desafios profissionais e deu início a uma nova fase de estudos.
Concursada, ela era responsável pela avaliação das prescrições médicas na área clínica, função que exigia analisar desde os medicamentos indicados até as dosagens estipuladas aos pacientes. “A minha formação era mais voltada para a química. Mas ainda assim, nunca fui capaz de fazer meu trabalho pela metade”, conta.
Para otimizar a rotina intensa, a farmacêutica criou um banco de dados, com informações de cada medicamento disponível na farmácia do hospital. Ainda assim, a falta de tempo para analisar os prontuários de forma detalhada limitava o alcance da iniciativa.
A análise mais cuidadosa dos casos acontecia durante o round multidisciplinar, quando a equipe de gestão de altas, da qual Ana fazia parte, e profissionais de outras áreas, se reunia para discutir sobre os pacientes.
“Antes dessas reuniões, eu estudava cada caso. Já tinha cerca de cinco anos de experiência no Hospital Conceição, o que me dava mais segurança nas avaliações”, explica.
Mesmo assim, apenas uma parcela pequena de casos era avaliada nesse nível de profundidade. “Os demais pacientes eram avaliados com o olhar logístico da farmácia”, garante.
A limitação não vinha da falta de critério, mas da dimensão do hospital. A unidade é a maior do Grupo Hospitalar Conceição e concentra todas as especialidades de um hospital geral, com atendimento ambulatorial, emergência e internação, além de manter o pronto-socorro aberto 24 horas por dia.
Fora do hospital
Ciente dessa realidade, Ana passou a compartilhar a rotina de trabalho em casa. À mesa, durante as conversas de domingo em família, ela dividia com os pais e irmãos os desafios enfrentados diariamente no hospital.
“Tenho três irmãos, dois são da área da tecnologia da informação e uma irmã é médica. Então, essa junção de áreas nas nossas conversas sempre existiu”, diz.
Ana e o irmão, Henrique Dias, cientista de dados, já haviam trabalhado juntos no desenvolvimento de programas antes dela trabalhar no hospital. Ainda jovens, quando ela cursava os primeiros anos da faculdade, os dois criaram um programa para uma farmácia de manipulação onde Ana estagiava. A experiência marcou o primeiro contato deles com tecnologia aplicada à saúde.
“Era um sistema pouco intuitivo, nada amigável. A ideia era criar algo diferente. Chegamos a vender o programa e ali ficou claro que já sabíamos trabalhar juntos”, afirma.
Entre congressos, estudos e muitas conversas, Ana e o irmão começaram a desenvolver uma ferramenta inteligente que, anos depois, seria reconhecida internacionalmente.
“Mesmo sem incentivo institucional, pesquisei ideias para agilizar a avaliação das prescrições médicas assim que entrei no hospital. Aos poucos, ficou claro que a tecnologia seria uma grande aliada”, diz.
O impacto NoHarm
O ano era 2017 quando o sistema começou a ganhar forma. De um lado, a farmacêutica trazia a vivência do hospital. Do outro, o irmão cursava doutorado em Inteligência Artificial. Da união entre prática clínica e tecnologia nasceu o NoHarm.
“Criamos um modelo capaz de identificar eventos adversos e apoiar os farmacêuticos na análise de prescrições complexas, com 20 ou 30 medicamentos, com o uso da Inteligência Artificial. A ferramenta ajuda a checar doses, posologia e possíveis interações, dando mais segurança à decisão do profissional”, conta Ana.
No ano seguinte, os dois publicaram o primeiro artigo científico sobre a solução em uma revista internacional de referência, consolidando o projeto também no meio acadêmico.
Meses depois, os primeiros testes da plataforma foram realizados na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, instituição com mais de mil leitos, que atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada do Rio Grande do Sul.
“Apresentamos o NoHarm a sete instituições, mas apenas dois hospitais aceitaram participar. Ainda assim, foi o suficiente para treinar, validar e estruturar a plataforma”, ressalta.
Sistema inteligente para todos
Hoje, o NoHarm está presente em 200 hospitais, distribuídos por diferentes estados do Brasil. O sistema também avança para alcançar diretamente Unidades Básicas de Saúde em regiões de difícil acesso, como a Amazônia, em comunidades ribeirinhas.
Segundo Ana, o objetivo da ferramenta é melhorar o cuidado ao paciente. No SUS, o sistema é oferecido gratuitamente. “O modelo de contratação considera apenas o número de leitos privados atendidos. Já os leitos do SUS têm acesso à solução sem custo. Em hospitais 100% SUS, o uso é integralmente gratuito”, concluiu.