Guarda-chuvas ajudam empreendedora a evitar descarte de mais de 1.000 kg de resíduos

Marina Giongo transforma materiais de reuso em designs autorais, oferecendo oportunidade de renda para mais de 100 costureiras em Porto Alegre

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Ela gerencia um negócio que faturou mais de R$ 190 mil no último ano. Foto: Divulgação

Para Marina Anderle Giongo a moda sempre se pautou no “chão de fábrica”. Hoje, ela lidera a CÓS – Costura Consciente, um negócio social em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que transforma materiais descartados, como o nylon de guarda-chuvas, em designs autorais. Desde 2019, a iniciativa já evitou que cerca de mil quilos de resíduos fossem parar no lixo.

Porém, sua trajetória com o processo produtivo começou muito antes da CÓS. Filha de um industrial, Marina cresceu entre máquinas e, em 2006, iniciou um curso técnico em termoplásticos no Instituto Federal. Ali, por mais que tivesse interesse na área, teve dificuldade para conseguir um estágio, vendo as vagas serem preenchidas por homens sob a justificativa de ser uma “indústria pesada”.

Esse cenário a impulsionou para iniciar uma graduação em Moda na Feevale e, mais tarde, um mestrado e doutorado em Design na UFRGS. “Eu sempre gostei muito da parte técnica, de modelagem, de conceito, de materiais… eu nunca fui do glamour, sempre fui do chão de fábrica”, conta em entrevista à ISTOÉ Mulher.

O nascimento da CÓS

Enquanto mergulhava na teoria sobre colaboração e moda sustentável, Marina acumulava experiência na gestão de empresas como o Grupo Dass e a marca Buda Kheiri, além de lecionar no Senac, Unisinos e Feevale. Foi em 2018, porém, após ser desligada da universidade onde trabalhava, que ela decidiu transformar sua pesquisa de doutorado em ação.

Através de um financiamento coletivo, Marina trouxe para Porto Alegre o Banco de Tecido, um negócio social focado na circulação de resíduos têxteis. O espaço logo se tornou um polo de trocas, onde ela e as sócias, que entraram em 2019, notaram uma lacuna no mercado: as marcas autorais não encontravam mão de obra qualificada para produções em pequena escala.

Com essa ideia em mente, a empresa, que foi criada em conjunto com um atelier de produção, passou a fornecer um vínculo pedagógico para as costureiras. “O grupo de produção é formado por mulheres que estão fora do mercado de trabalho formal por n motivos — seja por questões de saúde, dificuldades de adaptação com a jornada ou pelos filhos”, explica Marina.

No “Clube da Luluzinha”, como ela chama o ateliê, as 104 costureiras cadastradas combinam turnos via WhatsApp e recebem por peça produzida, respeitando a rotina de cada uma.

O uso de resíduos nos designs

A identidade da marca consolidou-se em 2021, quando uma empresa buscou a CÓS para dar destino a um estoque de guarda-chuvas defeituosos. Marina percebeu que o nylon impermeável, que levaria décadas para se decompor, era a matéria-prima ideal e decidiu se envolver neste universo. 

“Quando as mulheres entram no grupo de produção, começamos a ensinar do produto mais básico que é a necessaire, depois uma ecobag, pochete, shorts e por fim a jaqueta, nós fazemos essa escadinha”, explica.

Hoje, a coleção autoral da CÓS inclui jaquetas (R$ 348), chapéus (R$ 168), pochetes (R$ 124), shorts (R$ 174), bolsas (R$ 72) e nécessaires (R$ 50). Os produtos são vendidos no e-commerce da marca e em lojas parceiras, como a Endossa, presente em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. 

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A reinvenção da marca com as enchentes

Contudo, nenhum diploma preparou Marina para o desafio de maio de 2024. As enchentes que invadiram o Rio Grande do Sul fizeram a água subir mais de um metro dentro do ateliê, o que fez com que as máquinas ficassem submersas e o estoque fosse tomado pela lama, em um prejuízo de cerca de R$ 40 mil.

Durante os dois meses em que o ateliê estave inacessível, Marina trabalhou em uma ONG ajudando a costurar cobertores e agasalhos para reparar as perdas das enchentes. “Na época eu propus uma contrapartida de darmos cursos lá em troca de usar o atelier para a produção da CÓS”, relembra. 

Foi nesse cenário de caos que a mesma empresa de guarda-chuvas ofereceu 30 mil unidades danificadas pela enchente. Por meio de uma pré-venda coletiva, a CÓS resgatou meia tonelada de tecido e conseguiu produzir 1.500 jaquetas.

Atualmente, o ateliê também desenvolve projetos de reaproveitamento de resíduos para empresas, ministra oficinas de formação em parceria com ONGs e mantém uma produção sob demanda em pequena escala. Entre os nomes atendidos estão marcas gaúchas como Dreher 1989, Elisa Graeff, Lilian Maus e Mão Negra Ateliê.

O futuro da CÓS

Hoje, Marina equilibra todas as pontas da gestão estratégica com o apoio de seu “braço direito”, Isabela Genz Meinhardt, que começou na empresa como estagiária em 2019 e, hoje, coordena toda a produção.

Juntas, elas gerenciam um negócio que faturou mais de R$ 190 mil no último ano e que, desde 2019, estima ter evitado o descarte de mil quilos de resíduos e produzido cerca de 19,5 mil peças.

Para o futuro, Marina planeja a criação de uma rede de coleta de guarda-chuvas e outros resíduos que alcance todo o Brasil e também já vêm explorando o uso de outros materiais com características impermeáveis, como resíduos de pipas de kitesurf e de paraquedas. “Quero ampliar a venda do nosso trabalho autoral, que acho que é um projeto que tem ainda muito potencial de escala”, conta.