Juliana Villegas fatura 2 milhões por ano com calcinhas absorventes

Com a Somos Martina, a empresária colombiana une sustentabilidade para combater a pobreza menstrual e o impacto ambiental derivado do descarte de resíduos

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No primeiro ano, a marca vendia cerca de 15 unidades por mês, mas o cenário mudou drasticamente com a chegada da pandemia em 2020. Foto: Divulgação

Desde a infância, sustentabilidade sempre foi um tema que chamou a atenção de Juliana Villegas. À frente da Somos Martina, sua trajetória com o empreendedorismo começou justamente a partir de um desconforto pessoal com o descarte massivo de absorventes. Hoje, além de vender calcinhas impermeáveis, ela atua com a implementação delas nos uniformes escolares com o projeto “The Period Uniform”. 

No entanto, foi apenas por volta de 2012, enquanto cursava Línguas e Estudos Culturais na Univerdidad de Los Andes, em Bogotá que ela percebeu o real impacto dos absorventes no meio ambiente. 

Segundo levantamento feito pelo Instituto Akatu, ONG brasileira que atua com o consumo consciente, uma só pessoa pode descartar até 15 mil produtos ao longo de sua vida e acumular cerca de 200 quilos de resíduos, que possuem plástico em 90% da composição e demoram 500 anos para se decompor. 

“Tentei usar o coletor menstrual e nunca me adaptei. Mas, eu sabia que os produtos tradicionais eram muito poluentes e comecei a pensar que na Colômbia precisávamos de uma mudança para produtos ecológicos, pelo impacto que isso tem no mundo”, relembra.

Já inserida no segmento de moda com a fundação da Delirium Jackets , em 2016, ela se mudou para Barcelona, em 2018, para cursar pós-graduação em gerenciamento de produtos de moda na IED (Istituto Europeu de Design). 

Lá, Juliana teve o estalo definitivo em uma aula de moda sustentável: criar uma marca para mulheres que, como ela, buscavam uma menstruação consciente sem abrir mão da praticidade.

O boom da pandemia

Ao retornar para a Colômbia, Juliana começou a pesquisar mais sobre o tema em um contexto em que não existia praticamente nenhuma alternativa no mercado e os fabricantes locais sequer compreendiam o conceito de uma roupa íntima capaz de absorver fluxos sem vazamentos. 

Enquanto o mercado ainda engatinhava na América Latina, no dia 8 de março de 2019 ela fundou oficialmente a Somos Martina, no Dia Internacional da Mulher, com um único modelo, de cor preta e fluxo médio.

No primeiro ano, a marca vendia cerca de 15 unidades por mês, mas o cenário mudou drasticamente com a chegada da pandemia em 2020, quando as mulheres começaram a testar a tecnologia na segurança de suas casas. 

“A pandemia foi ótima para a Somos Martina porque as mulheres que queriam testar a calcinha, mas tinham medo de vazamentos na rotina, pensaram: ‘Ok, este é o momento de tentar porque estou em casa'”, relembra. 

O resultado foi um crescimento exponencial e um fenômeno de “boca a boca” que esgotou os estoques em semanas, elevando a operação para a venda de 900 a 1.400 unidades por mês em vários países, incluindo o Brasil. Com mais de 118 mil seguidores nas redes sociais, hoje, a Somos Martina possui um faturamento anual de aproximadamente 400 mil dólares, cerca de 2 milhões de reais.

Sustentabilidade e propósito

Sediada em Bogotá, que serve tanto de loja física quanto de centro comunitário, a marca expandiu seu portfólio para incluir desde roupas íntimas para fluxos leves a pesados até biquínis absorventes, boxers masculinos para incontinência e uma linha especial para adolescentes e mulheres no período de menopausa. 

Com uma equipe de sete mulheres liderando áreas que vão da sustentabilidade à logística, a empresa comercializa tamanhos que abrangem do XXS ao XXL e utiliza algodão com selo BCI, produzidos de forma sustentável, e eliminou as costuras que marcam a roupa. 

“Sempre tentei misturar moda com sustentabilidade, porque se as pessoas falam sobre calcinhas menstruais, a primeira coisa que vem à mente é aquela calcinha de vovó horrível. Não é o caso da Somos Martina”, conta. 

Recentemente, a marca alcançou a certificação B Corp, um selo que atesta que a empresa opera com 100% de sustentabilidade, não apenas nos materiais, mas em todas suas práticas sociais e internas.

O desafio com a pobreza menstrual 

Outro pilar do trabalho de Juliana é a pobreza menstrual, uma barreira silenciosa para a educação, não só na Colômbia como no mundo. Um levantamento feio pelo Instituto de Pesquisa Locomotiva, aponta que 52% das mulheres no Brasil já sofreram com pobreza menstrual e 35% afirmam que a compra de itens de higiene pessoal pesa na renda.

Com esse pensamento, ela estruturou um programa de impacto social que vai além da doação: a marca ensina mulheres em situação de vulnerabilidade a costurar seus próprios absorventes reutilizáveis, fornecendo conhecimento técnico que pode vir a se tornar uma fonte de renda. 

Confecção de calcinhas em projeto da “Somos Martina”. Crédito: Divulgação

Atualmente, o projeto “The Period Uniform” é a grande aposta de Juliana para combater a abstenção escolar, em um contexto em que duas em cada cinco meninas na América Latina faltam às aulas devido à menstruação, segundo a OMS. 

“Eu achava que a pobreza menstrual só acontecia na Índia ou na África, mas então percebi que obviamente também acontece na Colômbia e em muitos outros lugares. Queremos tornar essa roupa íntima tão obrigatória quanto um lápis ou um caderno; que faça parte do material escolar”, explica. 

A quebra do tabu

Juliana, que acaba de concluir um mestrado em Global Fashion Management no FIT em Nova York, enquanto consolida a presença da marca nos EUA, México e Costa Rica, mira a expansão da Somos Martina para o mercado da América Central e Latina. 

Além disso, ela defende a promoção da educação menstrual não apenas para mulheres, mas também para os homens e meninos. “Também é importante falar sobre menstruação com os meninos… temos que quebrar esse tabu, todos precisam conversar sobre isso, não apenas as mulheres. Toda menina terá, já teve ou tem menstruação. Da mesma forma, todas nós passaremos pela menopausa. Precisamos começar a falar sobre isso”, enfatiza.