Neste 11 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial das Meninas e Mulheres na Ciência, uma data estabelecida pela ONU em 2015 para lembrar que o progresso da ciência também depende da maior igualdade de gênero.
No Brasil, o cenário é de contrastes: se nas ciências biológicas e da saúde elas já são maioria, com cerca de 60% dos artigos publicados na área, segundo o relatório Gender in the Global Research Landscape, o jogo vira drasticamente quando olhamos para as áreas de STEM (física, matemática e engenharias).
De acordo com a Unesco, a média global de mulheres nessas áreas é de 35%, enquanto a média de pesquisadoras é ainda menor: 33,3%. Para a Dra. Helena Bonciani Nader, professora sênior da Unifesp e a primeira mulher a presidir a ABC (Academia Brasileira de Ciências) em mais de um século, a data é um chamado à reflexão.
“A ciência é uma profissão que te dá muita liberdade, mas que também cobra de você muitas coisas. Não é fácil chegar. As mulheres são as que mais se formam na universidade, mas quando você olha no topo da carreira, elas não são a maioria”, comenta.
O teto de vidro
O fenômeno conhecido como “teto de vidro” ou “efeito tesoura” é característico da participação feminina no mercado de trabalho e não se restringe à ciência. As expressões descrevem as barreiras invisíveis que impedem a ascensão dessas profissionais.
Nesse sentido, por mais que elas ingressem em massa nas universidades, a tendência é que comecem a sumir conforme a carreira avança para cargos mais altos, principalmente em áreas de ciência e tecnologia.
Ao analisar as bolsas concedidas pelo CNPq entre 2005 e 2023, entre as mulheres 51,8% detêm bolsas de iniciação científica, mas apenas 15,8% conseguem bolsas de produtividade em pesquisa, enquanto entre os homens, 30,22%, quase o dobro, alcançaram bolsas desse tipo.
“A ciência que é certa já não é mais a ciência, já é o atual. O buscar o novo é muito importante. Mas para a mulher chegar ao topo que ela merece, e que ela tem qualificação para isso, você tem que ter um olhar diferenciado das instituições”, afirma.
Por mais que o cenário ainda seja desigual, a participação feminina cresceu 29% na área nos últimos 20 anos, segundo o relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, da Elsevier-Bori e, em 2022, 49% da produção científica nacional contou com, pelo menos, uma autora.
Segundo o mesmo relatório, o Brasil é hoje o terceiro país do mundo com maior participação feminina na ciência, ficando atrás apenas da Argentina e de Portugal, ambos com índice de 52%.
Por que faltam mulheres no topo?
Helena alerta que a pandemia de COVID-19 atrasou esse avanço. “A produção científica dos homens aumentou durante a pandemia enquanto a das mulheres caiu. Ter que ficar em casa, prover e cuidar ficou evidente”, lamenta.
Dados da consultoria Nexus mostram que, em 2023, as mulheres registraram uma queda de 48% na taxa de formação na graduação, contra 36% dos homens. O movimento Parent in Science também comprovou, em pesquisa publicada na Frontiers, que mães e mulheres negras foram as que menos conseguiram submeter artigos durante o isolamento por conta da sobrecarga de tarefas.
Para a Dra. Helena, a escassez não é por falta de competência, mas por barreiras estruturais. Enquanto o sistema de avaliação acadêmica é linear, a vida das mulheres muitas vezes é entrecortada por pausas relacionadas a questões domésticas e de cuidado.
“Eu sou mãe, sou avó, eu adoro. Agora, não foi fácil. A espécie tem que continuar, a cientista não pode ser impedida de ser mãe, mas a estrutura ainda é de que a mulher cuida e o homem ajuda”, reflete
O que está sendo feito (e o que falta)
A mudança já começou, mas em passos graduais. Instituições como a ABC e a CAPES têm implementado critérios de avaliação que consideram o período de licença-maternidade nos currículos. Na própria Academia Brasileira de Ciências, Helena implementou uma “busca ativa” para indicar mais mulheres.
Contudo, ela ressalta que a inclusão não é apenas uma questão de justiça social, mas que a qualidade científica também depende de olhares múltiplos, corroborando um estudo da Universidade de Stanford, que mostrou que artigos produzidos por equipes mistas recebem 34% mais citações e têm maior impacto do que aqueles produzidos por equipes uniformes.
Nesse caso, a pesquisadora defende a implementação de políticas de ações afirmativas para colégios públicos e populações vulneráveis e estruturas de cuidado que permitam às cientistas focar em sua pesquisa.
“A sociedade tem que mudar. Começa com o pai e a mãe dando bloquinhos de engenheiro pras meninas e não apenas o fogãozinho. Nas escolas, os professores têm que incentivar, porque as meninas começam a ficar para trás em matemática por um estigma de que não são boas de conta”, pontua.