Embora o Brasil seja uma potência em supercomputação na América Latina, o país ocupa apenas a 39ª posição em equilíbrio de gênero no setor. Os dados são de um levantamento do Grupo In Press, em parceria com o escritório Carol Hannud Advogadas.
O estudo, intitulado “O que os dados revelam sobre a exclusão silenciosa de mulheres na revolução tecnológica”, mostra que o abismo entre quem desenvolve a tecnologia e quem sofre suas consequências é maior do que se imaginava.
O impacto da automação não é distribuído de forma igual. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres são o alvo principal: 9,6% dos empregos femininos estão em alto risco de serem substituídos ou transformados pela IA, contra apenas 3,5% dos homens.
O motivo é estrutural. A IA avança sobre funções administrativas e de suporte, onde a presença feminina é maioria. No setor de comunicação, o cenário se repete: enquanto as funções operacionais (majoritariamente femininas) correm o risco de desaparecer, os novos cargos estratégicos e de alta remuneração, como diretores de IA, continuam sendo dominados por homens.
O “teto de vidro” é feito de tempo (ou da falta dele)
Por que as mulheres não estão se qualificando na mesma velocidade? O estudo aponta que o problema não é a falta de interesse, mas a sobrecarga. A famosa jornada dupla atua como um “teto de vidro tecnológico”.
As mulheres dedicam, em média, 21,4 horas por semana a tarefas domésticas e cuidados com a família, o dobro dos homens. São 434 horas a menos por ano para estudar, testar ferramentas ou fazer cursos de IA. Não surpreende, portanto, que elas ocupem menos de 30% das vagas em cursos de tecnologia.
A pesquisa também mergulhou nas redes sociais e, ao analisar mais de 30 mil publicações, a descoberta foi de que as mulheres são autoras de apenas 4,2% das postagens sobre IA. Além de falarem pouco, 59% do conteúdo é negativo.
O debate foca quase exclusivamente no medo, entre as postagens com maior engajamento estão conteúdos sobre violência, deepfakes e proteção. Já termos como capacitação e cursos quase não são citados.
O futuro está sendo desenhado sem elas
Educação, empoderamento e dupla jornada somam menos de 4% dos posts de março e 0,07% das conversas mencionaram a questão da dupla jornada, mesmo as mulheres sendo afetadas diariamente por ela.
Ao não tratar essas questões, a sociedade acaba reforçando o afastamento das mulheres da criação e utilização dessas ferramentas, segundo o estudo. “A sobrecarga de tempo é o obstáculo mais consistente nas pesquisas sobre desigualdade de gênero na adoção tecnológica, e quase nunca aparece na conversa pública. Mulheres têm, em média, 434 horas a menos por ano para aprender e testar novas ferramentas. Não existe futuro democrático se elas não tiverem tempo para estudar, criar, participar e existir politicamente”, diz Carol Hannud, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Mulher e Democracia: Renda e Justiça de Gênero do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).