Mulheres crescem e redefinem o setor de design de produtos

Do canteiro de obras ao chão de fábrica, elas superam o preconceito no setor e adicionam sensibilidade e preocupação com sustentabilidade ao mercado

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Roberta Banqueri em divulgação da Coleção Ítalo Tropical. Foto: Divulgação

O cenário da arquitetura e da decoração no Brasil hoje é liderado por mulheres. Não é apenas uma impressão: elas são a imensa maioria, representando 64% dos profissionais registrados no CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) e 80% do setor de design de interiores.

Mas chegar até aqui não foi um caminho fácil. Se hoje elas lideram o design independente, é porque nomes brasileiros como Rosa Kliass, Carmem Portinho e Odiléa Toscano abriram as primeiras portas décadas atrás. 

Agora, a nova geração busca uma renovação do setor, unindo identidade própria, sustentabilidade e sensibilidade às criações, sem abrir mão da brasilidade na construção dos mobiliários. 

Dia a dia de fábrica

Por mais que sejam maioria no setor, migrar do desenho de interiores para a indústria ainda traz desafios que vão muito além da técnica. Para Juliana Pippi, com seus 25 anos de carreira e liderando seu escritório desde 2000, a transição foi natural ao perceber que a customização que já fazia para seus clientes poderia ganhar uma escala industrial.

A ítalo-brasileira Roberta Banqueri também passou por essa transição após atuar por cerca de 20 anos como arquiteta e, aos 38 anos, decidiu que queria criar produtos que pudessem ser repetidos e escalonados. Atuando, agora, há quase oito anos na área de design de produtos.

Ela chegou a morar ao lado da fábrica para dominar cada etapa da produção, enfrentando resistências silenciosas, e outras nem tanto, em um setor tradicionalmente masculino. “No início não foi fácil. Como é que uma mulher que eles nem viram na vida vem e diz que o produto não tá bom e têm que fazer de outro jeito”, relembra.

A feminilidade em jogo

Linda Martins também enfrentou dificuldades para achar seu caminho após se formar em design aos 30 anos. “Temos que nos provar o tempo todo e estamos sempre trabalhando por dois. Eu me formei mais tarde porque primeiro eu fui ser mãe, então já chegamos no mercado de trabalho um pouquinho ‘atrasadas’”, reflete. 

Linda Martins, idealizadora da “Cadeira Lady”. Foto: Divulgação

Em 2017, enquanto ainda estudava no Instituto Marangoni, em Milão, Linda materializou essa resiliência em uma peça que se tornou um sucesso de vendas. Ganhadora de prêmios importantes como o A’Design Award e no Muse Design Awards, a “Cadeira Lady” foi inspirada na força feminina.

“Criei uma peça feita de uma mulher para outra mulher. Ela tem um pé que remete ao salto alto e uma curvatura em espuma injetada que abraça, lembrando o quadril feminino”, explica.

Para ela, essa identificação vai além da estética, sendo uma estratégia de mercado, já que a palavra final na compra da casa, quase sempre, é delas. Nesse sentido, a mulher precisa se sentir representada dentro de um mercado que ela mesma movimenta, sendo responsáveis por 94% das decisões de compra, segundo a Harvard Business Review. 

A sensibilidade do olhar feminino

Mas o que diferencia o toque feminino no setor? Segundo elas, é uma mistura de uma visão abrangente e atenção aos detalhes, unidos à maior sensibilidade. “Uma cadeira é sempre uma cadeira, o que faz uma diferença é a história que está por trás dela, e eu acho que as mulheres são melhores contadoras de história”, reflete Juliana.

Roberta também nota uma diferença clara até na linha de produção: nos setores de acabamento operados por mulheres com os quais trabalha, como a laminação de mobiliário, o resultado tende a ser superior, por elas serem mais metódicas e caprichosas. 

“Fábrica é um ambiente um pouco mais hostil pras mulheres, são muitas horas de trabalho em pé, o que querendo ou não é um pouco mais difícil, mas quando falamos da tal igualdade, nós realmente estamos nos igualando”, diz. 

Design com consciência 

Vencedora do prêmio do IF Design em 2026 pela criação do pendente “Cipó”, luminária que combina cordas de sisal trançadas manualmente a esferas de vidro soprado, para Juliana Pippi a sustentabilidade já um pilar de seu trabalho e o país vive um momento de transição. “O Brasil já ligou esse radar há algum tempo. Estamos nos tornando um adolescente consciente em relação ao design”, conta.

Juliana Pippi, design há 25 anos

Para ela, a sustentabilidade, além de passar pelo uso de materiais renováveis, como os feitos com algas ou casca de abacaxi, se foca principalmente no aumento da vida útil da peça. “Precisamos trabalhar como um todo com a questão da sustentabilidade, não é só na matéria-prima, mas em entender desde os processos das fábricas até o descarte desse produto e a vida longa que ele vai ter”, pontua. 

Busca pela “brasilidade”

A tal ‘brasilidade’ não pode ser resumida ao estereótipo do uso da madeira clara ou a palha, muito ligados aos designers nacionais. “Minha angústia pessoal é entender o que é o design nacional. Precisamos evoluir e entender que não podemos ficar presos apenas a alguns materiais”, reflete Roberta. 

Juliana Pippi ressalta o valor da criatividade, utilizando em suas coleções desde a lã de ovelha, pedras, cerâmicas e argila até a renda e o linho. Já Linda Martins, por sua vez, encontrou na história do Brasil o eixo de seu trabalho. 

Após retornar de Milão e perceber que peças puramente artísticas e conceituais não se encaixariam no mercado nacional, ela mergulhou nas raízes do modernismo para buscar inspiração. “Meu professor sempre falava que quando a gente vê um passado que deu certo a gente consegue projetar um futuro mais assertivo”, explica.