A segunda edição da pesquisa “Nanoempreendedora em Foco: Identidade e o Paradoxo da Autonomia”, promovida pelo Instituto Consulado da Mulher em parceria com a ENGIE Brasil e Be.Labstraz, foi lançada em março.
Os dados traçam o perfil e os desafios enfrentados pelas pequenas empresárias no Brasil, das quais 71% são negras, e contempla as chamadas “nanoempreendedoras”, que gerenciam negócios com faturamento anual de até R$ 40,5 mil.
A maioria (61%) tem entre 30 e 49 anos, formando a chamada “geração sanduíche”: mulheres que estão na fase da vida em que precisam equilibrar o cuidado das crianças e pais idosos.
Quebrando o estereótipo de baixa escolaridade, a pesquisa mostra um “paradoxo da qualificação”, no qual quase 40% delas possuem ensino superior completo ou pós-graduação.
O desafio que enfrentam, nesse caso, é escapar do chamado “piso pegajoso” (sticky floor), que consiste em barreiras invisíveis que as retêm na base da pirâmide e tornam sua mobilidade social mais difícil.
A sobrevivência do negócio
Para 75% das entrevistadas, empreender foi uma resposta à necessidade, como um complemento de renda ou desemprego. O negócio é, para 49% delas, a principal fonte de sustento da casa, com 70% atuando nas áreas de alimentação, manufatura, artesanato e costura.
A realidade financeira é apertada: 78% faturam até R$ 3.000 por mês, mesmo 78% mantendo seus negócios há mais de 3 anos e 41,5% já ultrapassaram a marca de 6 anos desde a abertura.
Surge então o “paradoxo da autonomia”, com cerca de 60% não cogitando voltar ao regime CLT por conta da flexibilidade, já que 85% têm filhos e o trabalho doméstico recai quase totalmente sobre elas.
No entanto, o preço dessa autonomia é alto, com 37% dedicando mais de 5 horas por dia apenas ao trabalho do cuidado, enquanto mais de 60% dedicam mais de 5 horas ao negócio, com jornadas diárias de 10 a 12 horas de trabalho ao todo.
A sobrecarga também é outro fator em comum, com 56% afirmando trabalhar mais hoje do que se tivessem carteira assinada. A sexta-feira é o dia mais intenso para 80% delas, por conta das demandas do fim de semana.
Saúde mental, física e social
A jornada exaustiva afeta diretamente a saúde delas. O esgotamento é citado por 59%, que enfrentam problemas como ansiedade e estresse crônico, sendo que 44% começaram a ter esses sintomas após empreender.
Além disso, 46% convivem com dores crônicas ou limitações. O esforço manual resulta no que o estudo chama de “triângulo da dor”, que faz com que 61% sofram com dores na coluna/pescoço, pernas/pés ou braços/mãos.
Para 92%, a fé é fundamental para enfrentar essas dificuldades. A igreja funciona como um espaço de apoio, sendo que para 53% delas, também é um local para divulgar seu trabalho.
Invisibilidade e formalização
Cerca de 47,7% não são formalizadas, enquanto 44,2% possuem CNPJ ativo. O principal motivo para não se formalizar não é a burocracia, mas a vulnerabilidade econômica: 31% não têm dinheiro para os custos do MEI e 17% sentem insegurança sobre a continuidade do faturamento do negócio.
Sem a formalização, elas ficam desamparadas de direitos previdenciários básicos, segundo o estudo, como o auxílio-médico em casos de doença.
Para 71% a conexão e a rede de apoio formada por outras mulheres empreendedoras é muito importante nesse contexto. Após a participação em programas de formação, 70% das mulheres afirmam que sua renda pessoal aumentou.
“O ponto mais impactante na minha formação foi me enxergar nas dificuldades de outras mulheres, entender que não sou incompetente e sim sobrecarregada”, disse uma das empreendedoras da pesquisa.mu