A presença feminina no setor de tecnologia brasileiro ainda é exceção. De acordo com o estudo W-Tech 2025, produzido pelo Observatório Softex, apenas 19,2% dos especialistas em TI no Brasil são mulheres. Na prática, isso significa que elas são pouco menos de 90 mil profissionais dentro de quase meio milhão de trabalhadores da área.
O levantamento traça um retrato detalhado da participação feminina na indústria tecnológica com base nos dados do Ministério da Economia: quem são essas profissionais, onde estão, quanto recebem e por que tantas ainda ficam pelo caminho e não conseguem avançar para cargos mais altos.
Formação desigual e salários menores
A disparidade começa ainda na formação. Só 17,8% das concluintes de cursos de TI são mulheres, um avanço de apenas 1,3 ponto percentual ao longo de dez anos. E, mesmo com níveis de escolaridade mais elevados que os homens, elas seguem ganhando menos.
Por mais que representem 37% da força de trabalho, elas são apenas 19,2% das especialistas e recebem, em média, R$1.618 a menos por mês, o que representa uma diferença salarial de 19,3%.
Nas funções técnicas, o abismo se amplia: programadoras ganham 25% a menos, e tecnólogas, 29%. A desigualdade se intensifica também na liderança: mulheres ocupam 26,2% das gerências e somente 13,1% das diretorias, índice inferior ao registrado em 2015.
A cor e a região em que moram também pesam. Em estados como Roraima, Amapá e Maranhão, menos de 10% dos especialistas são mulheres. No total, 59,6% das profissionais são brancas, já as mulheres pretas representam apenas 5,5% das empregadas na área.
Um setor que avança devagar
O Global Gender Gap Report 2025 estima que levará 123 anos para alcançar a igualdade plena entre homens e mulheres no mundo. No Brasil, o índice de participação econômica feminina caiu para 66,2%, colocando o país na 96ª posição global, um recuo de oito posições em relação a 2024.
Para que o setor de TI brasileiro alcance a paridade até 2030, seria necessário incorporar 53,5 mil novas mulheres por ano. Mantido o ritmo atual, de 15,6 mil contratações anuais, o equilíbrio só chegaria em 2110, segundo o Observatório Softex.
Mas há brechas. As mulheres já são 29,8% das concluintes em cursos de Inteligência Artificial no Brasil, superando a média global de 22%. Também representam 17% da força de trabalho em cibersegurança e 28% nas áreas ligadas à economia verde digital, campos importantes para o futuro do setor.
Políticas que podem mudar o cenário
O estudo apresenta sete diretrizes para transformar o setor e acelerar a inclusão feminina, de ações educacionais a mecanismos regulatórios e incentivos econômicos. Entre elas:
- Diagnosticar os pontos de entrada, evasão e avanço das mulheres na formação e no mercado
- Monitoramento transparente com dados abertos
- Metas públicas e relatórios semestrais
- Incentivos fiscais vinculados à redução de desigualdades
- Políticas de diversidade em compras e inovação
- Apoio à parentalidade e retorno ao trabalho, especialmente entre mulheres de 35 a 40 anos
- Responsabilização das empresas pelo cumprimento de metas anuais