Neta de seringueiro cria IA para identificar madeiras da floresta amazônica

Fernanda transformou a herança familiar em uma startup que usa inteligência artificial para combater ilegalidades e levar educação ambiental à população

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O faturamento projetado para este ano é de R$ 250 mil. Foto: Divulgação

Crescer em uma casa de comerciantes, no coração de Rio Branco, no Acre, foi o primeiro contato de Fernanda Onofre com o empreendedorismo, ainda que só viesse a seguir esse caminho muitos anos depois. Hoje, ela está à frente da WoodLab, uma startup de tecnologia que utiliza inteligência artificial para identificar espécies de madeira na Amazônia com faturamento projetado em R$ 250 mil para este ano.

Formada em Engenharia Civil pela UniNorte, Fernanda percebeu desde cedo que precisaria insistir, muito mais do que os colegas, para encontrar e ocupar seu espaço dentro da profissão. “É uma área muito masculina, dos 120 alunos da minha sala só tinham 16 meninas, e era muito difícil eles nos contratarem”, relembra. A solução que ela encontrou foi simples: trabalhar de graça em troca de experiência.

“Eu precisei estagiar de graça para poder ser aceita ali nas obras. Quando eu dizia que eu não queria receber, eu só queria aprender, eles me aceitavam”, conta. Foram mais de dois anos assim, aprendendo diariamente com mestres de obra, pedreiros e técnicos.

Em 2020, recém-formada, ela foi convidada para trabalhar no interior de Rondônia, na prefeitura de Ji-Paraná, em um projeto de pavimentação urbana e, na Secretaria de Obras, acabou chefiando a produção. “Foi muito legal para mostrar que eu, apesar de estar com pouco tempo de formada, mereci estar naquele lugar”, comenta. 

O chamado da floresta 

A trajetória na engenharia, porém, ganharia um novo fôlego com uma mudança de ares, e de setor. Em 2022, Fernanda se mudou para São Paulo após conhecer Miguel Isoni Filho, hoje seu marido, durante uma viagem ao Guarujá, no litoral paulista. Na capital, Fernanda passou a atuar na área comercial da Neoron, empresa de chatbots fundada por ele. Foi ali que começou a ter contato mais direto com o universo da tecnologia.

Mas foi um edital do PPBio (Programa Prioritário de Bioeconomia), que buscava soluções tecnológicas e sustentáveis para a região amazônica, que plantou a semente do que viria a se tornar a WoodChat. “Foi o edital que caiu na nossa mão e eu senti que precisava fazer isso”, conta.

Fernanda reuniu o irmão, Fábio Onofre, o marido e a equipe da Neoron para criar um projeto capaz de identificar espécies de madeira diretamente pelo WhatsApp. A ideia era, a partir de uma foto da madeira ou do corte transversal do tronco, a plataforma analisar a “impressão digital” da espécie, fornecendo seu nome, tempo de vida e legalidade para corte.

Durante o desenvolvimento, o grupo se conectou com a Mil Madeiras, braço brasileiro do grupo suíço Precious Wood e uma das maiores madeireiras do país. Juntos, realizaram uma prova de conceito que conseguiu diferenciar duas espécies quase idênticas a olho nu: a violeta e o roxinho. O projeto abriu portas para parcerias e revelou uma demanda antiga do setor florestal. “É um mercado muito pobre de tecnologia”, comenta Fernanda. 

O nascimento da WoodChat

A demanda pela regularização não é recente. A região amazônica abriga cerca de 2.500 espécies de árvores, mas nem todas são exploradas comercialmente. Dessas, aproximadamente 300 espécies são usadas no mercado madeireiro. Para que possam ser exportadas, é necessário fornecer a certificação de que os cortes não estão ligados ao desmatamento ou á exploração ilegal. 

Foi nesse contexto que o resultado da prova de conceito ganhou força e, além de validar a tecnologia, também abriu espaço para a construção de um banco de dados próprio, alimentado inicialmente com 12 amostras doadas pela empresa Com isso, a WoodChat deixou de ser apenas um protótipo e Fernanda passou a buscar editais para dar vida ao projeto.

Com essa ideia em mente, ela iniciou um ciclo de captação e, em 2025, recebeu o Prêmio da Meta, no valor de R$ 250 mil, seguido por R$ 85 mil em recursos de pesquisa e pelo Prêmio Finep, de R$ 100 mil, no final do ano.

Hoje, a plataforma possui um banco de dados com cerca de 2 mil imagens catalogadas e com uma precisão de 98% nas identificações de 16 espécies. Até o momento, cinco madeireiras estão utilizando a ferramenta por meio de assinaturas que variam conforme o volume de análises realizadas.

A expansão para o WoodLab

Paralelamente ao avanço do negócio, a WoodChat ultrapassou a marca de 2.500 usuários e passou a ser utilizada também como ferramenta educacional. Elaborada para a ExpoAcre, exposição da qual a empresa participou a convite do Sebrae, a startup criou a Violeta, uma assistente virtual no WhatsApp.

Com mais de 1.200 acessos no mês passado, o chatbot virou a “professora da floresta”, explica Fernanda. “Ela conversa sobre a região Norte e a floresta amazônica, foi a forma que achamos de levar educação ambiental de forma mais acessível.”

Agora, o olhar de Fernanda está voltado para avançar na rastreabilidade da madeira, acompanhando sua origem desde a floresta até o mercado. Para isso, o objetivo é ampliar a base de dados e chamar a atenção do Ibama, a entidade responsável pela proteção ambiental no país. 

“A Floresta Amazônica tem de 40 a 300 espécies por hectare, é uma biodiversidade enorme”, explica. “Quando a gente conseguir integrar a tecnologia a documentos de origem florestal, vamos ter não só um banco de dados maior, mas um serviço mais completo”. 

Durante esse processo, Fernanda também se reconectou com a própria história. “Eu só descobri que meu avô era seringueiro e participava das reuniões junto com Chico Mendes por causa da WoodChat”, relembra.

A descoberta deu outro sentido ao trabalho. “É como se as energias me trouxessem para cá para que eu entendesse qual é a minha história e falasse dela”, diz. “A WoodChat me deu um senso de pertencimento e fez com que eu me reconectasse com a minha região.”