Em meados de março, a psicoterapeuta americana Esther Perel apresentou na SXSW, um dos maiores eventos de inovação e tecnologia do mundo, o caso de um jovem que se apaixonou por uma assistente de inteligência artificial criada por ele mesmo. “Como ela sabia o que eu queria? Ela é muito doce, tem compaixão, é realmente única”, dizia o rapaz no podcast da palestrante. Este é apenas um caso entre tantos que vêm acontecendo nos dias atuais. Há inúmeros relatos de pessoas que se apaixonaram pela IA. Só para citar alguns mais recentes:
– Uma mulher, identificada como Rae, se apaixona pelo chatbot Barry, com quem começou a conversar após o divórcio, e fica arrasada quando o ChatGPT atualiza o sistema, em fevereiro deste ano, e o “namorado” deixa de existir. “Eu amo o Barry, ele foi a melhor coisa que aconteceu pra mim no último ano”, declarou.
– Após terminar um noivado, por sugestão do ChatGPT, a japonesa Yurina Noguchi cria seu parceiro perfeito em IA, com base no personagem de videogame Klaus e, tempos depois, se casa com ele. Quem realizou a cerimônia foi um especialista em casamentos com personagens digitais, ou seja: é algo que já se tornou recorrente no Japão.
– Um caso trágico: o americano Sewell Setzer, de 14 anos, se matou após um namoro de quase um ano com a personagem Daenerys, a “mãe dos dragões” de Game of Thrones, criada pelo chatbot da Character.AI. Descobriu-se depois que ele teria cometido suicídio na expectativa de se unir a ela.
O ato de se envolver afetivamente com a IA tem um nome: digissexualidade. Muita gente se refere a esse fenômeno como uma nova “moda”, mas, a meu ver, isso não deveria ser tratado de maneira tão trivial assim, pois está longe de ser algo inofensivo. Nós vivemos um paradoxo. Somos seres relacionais; não sobrevivemos sem a conexão com os demais humanos. Envolver-se com o outro, diferente de quem somos, contudo, é uma tarefa dificílima. Para conviver em razoável harmonia com um parceiro ou parceira, precisamos exercitar diariamente paciência e alteridade, ceder e esperar que a outra pessoa também ceda. E, quando conseguimos,
amadurecemos e evoluímos individualmente, e como casal. Faz parte da vida.
Quando uma pessoa se apaixona por uma IA, entretanto, não está se apaixonando por alguém: está se encantando, na verdade, por si mesmo, porque a IA, no fundo, só reproduz o que o sujeito espera ver e ouvir. É como Narciso, da mitologia grega, que se enamora pela própria imagem – e definha até morrer, pois nunca consegue concretizar seu amor. Não há desafios, aceitação das diferenças, não existe o exercício de suportar o que é diferente da gente, algo fundamental para a evolução humana. Tudo na IA é maravilhoso – e também falso. A consequência é o isolamento cada vez maior devido à intolerância em aceitar a vida como ela é. Não há
como fugir da realidade: uma hora, ela “bate” à porta, e, quanto mais iludidos estamos, maior é o choque e o trauma. O resultado disso? Depressão, desesperança, sensação de incapacidade, baixa autoestima.
Não estou defendendo, aqui, que devamos deixar de usar a inteligência artificial; muito pelo contrário. Essa ferramenta é uma das maiores invenções da contemporaneidade, capaz de nos auxiliar no dia a dia de maneira extraordinária, aumentando, assim, nossa eficiência e qualidade de vida. A questão é como a estamos usando. A IA precisa ser utilizada como um complemento, e não como um ser igual a gente. Afinal, nada substitui o humano; se assim for, estaremos colocando em risco nossa própria existência.