O peso fica todo para elas

Coluna: Rosana Zakabi

Psicóloga, jornalista e psicanalista, é membro-filiada da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Especialista em casais e famílias, também faz atendimentos individuais em consultório na Vila Madalena, em São Paulo (SP)

O peso fica todo para elas

A culpa por tanta violência de gênero não é só da maneira como criamos os meninos, mas também como nós, enquanto sociedade, cobramos nossas meninas desde cedo

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Foto: Envato

O feminicídio, lamentavelmente, tem se tornado um crime cada vez mais frequente em todo o país. No ano passado, foram 1.470 casos, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o equivalente a quatro mulheres mortas por dia. As estatísticas mostram um crescimento de 316% em uma década. É o que vemos todos os dias nos noticiários: sujeito mata esposa a facadas após pedido de divórcio, atropela ex-namorada ao vê-la com outro na balada. Isso sem contar as tentativas de assassinato e agressões, que vêm ocorrendo a todo instante.

Dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo mostram que, em janeiro deste ano, uma média de 89 mulheres foram agredidas por dia na Grande São Paulo. Uma das principais explicações para essa barbárie é o machismo estrutural, presente em nossa sociedade há décadas, que estimula, de maneira tóxica, a misoginia, o ódio contra a mulher simplesmente por ela ser desse gênero. Há um agravante maior nos dias atuais: uma intolerância à frustração que atinge níveis fatais, nos casos em que o “não” se torna insuportável.

Diante dessas tragédias, muito se fala numa urgência em educar melhor nossos meninos, para que eles aprendam desde a infância a respeitar as mulheres. Essa é, sem dúvida, uma medida imprescindível, a começar pelo exemplo em casa. Crianças que crescem em um ambiente no qual as mulheres são desvalorizadas, tendem a reproduzir esse comportamento no futuro. Mas existe um ponto que é pouco abordado, quando o assunto é agressão de gênero. Não basta só olhar para os meninos. É preciso refletir sobre como estamos criando nossas meninas, muitas vezes, a meu ver, com excessiva cobrança e pouco acolhimento.

Desde a mais tenra idade, nós, mulheres, crescemos sob a ideia de que temos de dar conta de tudo. Estudamos para sermos profissionais bem-sucedidas e ainda nos preparamos para nos tornar boas mães, donas de casa e esposas. Um meme famoso, que circula pelas redes sociais, mostra uma mulher com 39 graus de febre correndo de um lado para o outro, para dar conta de tudo, enquanto o homem, com 37,5 graus, fica padecendo na cama. É verdade: somos treinadas para não fraquejar, mas será, mesmo, que deveria ser assim?

Afinal, quantas de nós não sofremos de estresse e outros problemas emocionais, diante de tanta sobrecarga?
Há um problema maior nessa questão. Além da crença de que precisamos ser trabalhadoras, donas de casa, mães e esposas, existe uma falsa percepção de que também somos as únicas responsáveis pelo êxito do relacionamento, pelo bem-estar da família e harmonia do lar. Se essa equação falha, soa equivocadamente como um fracasso pessoal, pelo qual seremos julgadas e cobradas. É por isso, do meu ponto de vista, que tantas mulheres insistem na relação, mesmo sofrendo abusos, acreditando, ilusoriamente, que o parceiro poderá melhorar, que essa transformação depende delas aguentarem e saberem lidar com a situação. Trata-se de uma visão errônea, porque o sucesso da relação não depende apenas dela; é do casal.

Quantas vezes ouvimos que a mulher foi morta após retirar denúncia na delegacia e voltar para o ex-companheiro? Isso não é simplesmente uma fraqueza de caráter ou uma carência exacerbada desta pessoa e sim, a maneira como ela internalizou uma cobrança social transmitida por gerações. Para que possamos mudar esses disparates que vêm ocorrendo de maneira exponencial, é fundamental que comecemos a repensar a forma como tratamos as mulheres, desde cedo. É preciso reforçar às nossas meninas que elas não devem suportar tudo; que não cabe apenas a elas salvar relações; e que, às vezes, ir embora não é falhar — é apenas reconhecer que ninguém deve permanecer onde já não existe respeito, cuidado ou segurança.

Este seria um primeiro passo para que elas parem de carregar culpas que não são delas, como ocorreu no caso da jovem de 17 anos que foi estuprada por quatro rapazes e um menor em Copacabana, no Rio de Janeiro e que, depois, falou para a mãe que queria desistir da vida, porque, segundo ela, por onde passasse, seria apontada como responsável pela barbárie, um equívoco deplorável. Enquanto nós, mulheres, formos ensinadas a suportar, a insistir e a se culpar, continuaremos alimentando o ciclo que nos coloca em risco.