Pedagoga hackeia sistema para levar a educação ao Complexo do Chapadão, no RJ

Fundadora do Instituto Educar+, Carol Santos transformou a própria trajetória em um projeto que hoje impacta mais de 500 famílias

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Após participarem do programa "The Wall", do Caldeirão do Hulk, o projeto ganhou visibilidade nacional. Foto: Divulgação

Para Carol Santos, o Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é mais do que apenas um número nas estatísticas de violência: é o solo onde ela decidiu fundar o Instituto Educar+. A organização, que nasceu com o objetivo de levar educação aos jovens do território, hoje impacta mais de 500 crianças com cursos e atividades voltadas ao setor de tecnologia. 

Sua trajetória começou com uma inquietação aos 19 anos. Enquanto cursava pedagogia e trabalhava como CLT, ela via o tráfico avançar sobre o território e roubar algo que ela considerava essencial: a visão de futuro dos jovens.

“Uma das coisas que eu percebi que a violência tirou da gente, que já não tínhamos muito, é a nossa visão de futuro. Ele foi roubado de alguma forma, porque começaram ali os estigmas”, reflete.

Determinada a mudar esse roteiro, ela usou o pouco que tinha: o acesso a um curso de informática na Tijuca e a vontade de replicar as oportunidades que via fora da comunidade. Assim nasceu, em 2017, o que viria a ser o Instituto Educar+, que começou como um coletivo de leitura em um espaço cedido por uma igreja do território.

Do voluntariado ao “boom” nacional

Durante os primeiros três anos, o Educar+ sobreviveu sem nenhum retorno financeiro para a equipe. “A gente começou empreendendo muito na raça ali, na doação”, explica Carol. A estruturação profissional começou em 2020, com a formalização do CNPJ, mas o grande impulso veio em 2021, por meio do do programa “The Wall’, do Caldeirão do Huck.

O prêmio e as doações posteriores permitiram a reforma da sede própria e a estruturação de programas que hoje atendem mais de 500 crianças anualmente. Além dos R$ 38 mil, que somados a uma vaquinha, totalizaram R$ 60 mil, veio a credibilidade: “Por eu ser muito jovem, com o Luciano Huck veio uma visibilidade de maneira nacional e acabou que isso trouxe legitimidade para tudo que nós estávamos fazendo”, relembra Carol. 

Hoje, o Instituto é mantido por doações diretas e institutos filantrópicos, com uma equipe de 17 pessoas. O trabalho ocorre no contraturno escolar, com programas de letramento digital e alfabetização matemática na abordagem STEAM, voltado à lógica de programação.

O Instituto também oferece cursos de literatura, audiovisual, fotografia e capoeira, além de apoio psicossocial com o atendimento para crianças e às mães, com o grupo “Mães e Comunidade”.

Quebrando o “clube do Bolinha” tecnológico

Se o terceiro setor já apresentava desafios, a entrada de Carol no mundo da tecnologia foi um teste de resiliência. Ao frequentar eventos de inovação no Museu do Amanhã, ela se deparou com um ambiente muito diferente de sua realidade. “Não tinham mulheres e todos vinham de outro contexto social, mas estavam falando de uma tecnologia revolucionária chamada Blockchain. Falei: ‘Cara, o que é isso?'”, conta.

Em vez de recuar, ela decidiu mergulhar nesse universo e, em 2023, começou a atuar como palestrante, trazendo a visão sobre como usar a tecnologia para impacto social. Hoje, além do Instituto, ela organiza hackathons, maratonas de competição, e bootcamps, treinamentos voltados para a área de tecnologia, de forma autônoma. 

A metodologia já ultrapassou os limites do Rio de Janeiro e sob sua mentoria, alguns jovens do Instituto passaram a participar de competições de tecnologia em eventos em São Paulo e até Buenos Aires. Nessa última, conquistaram um prêmio de 8 mil reais. “Conseguimos o patrocínio para ambas ativações, e queremos incentivar mais jovens a entrar na área de tecnologia, principalmente meninas”, conta.

Maternidade e o futuro do projeto

Em 2024, Carol enfrentou um novo desafio: a maternidade. Com o nascimento de sua filha, ela sentiu na pele o peso de empreender sem a proteção oferecida pela carteira de trabalho. “Eu saí do CLT para não depender de ninguém, e agora tudo depende de mim. Voltei a trabalhar com minha filha com quatro meses. Se você não tem uma boa rede de apoio, o início dessa transição é muito desafiador.”

Para ela, o Educar+, além do impacto social, também tem importância geracional. “Hoje eu quero oferecer para minha filha diferente. Eu tive zero estrutura e muita limitação para entrar nesses espaços”, recorda. 

Essa mesma garra impulsiona os próximos passos do Instituto. O plano agora é construir uma sede de mais de 400 metros quadrados no terreno ao lado e a pretensão é de aumentar até três vezes o número de atendidos, caso consigam um patrocinador.

Além da expansão física, ela planeja lançar programas educacionais na área Tech e de geração de renda para mães e jovens da comunidade. “Eu enxergo a educação como um caminho porque foi ela que me trouxe até onde eu estou. Minha mãe falava para mim que a única forma de mudar a realidade era através da educação”.