Pela primeira vez, mulheres se tornam maioria entre médicos em São Paulo

Relatório Demografia Médica 2026 mostra mudança no perfil da profissão, mas aponta que desigualdades salariais e de liderança ainda estão presentes

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Atualmente, as mulheres já são maioria em 22 das 55 especialidades médicas. Foto: Envato

O perfil da medicina no estado de São Paulo passa por uma transformação com as mulheres ultrapassando os homens e se tornando maioria entre os médicos em atividade. O dado faz parte do relatório Demografia Médica 2026 e reflete uma tendência que vinha se desenhando com maior entrada delas nas universidades e em programas de residência.

Recorte estadual da pesquisa coordenada pelo professor Mário Scheffer, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), a mudança não é pontual. Segundo o estudo, a presença feminina deve crescer na próxima década, com projeções de ocuparem cerca de 70% do mercado médico da cidade nos próximos dez anos.

Apesar do marco histórico, o avanço não se traduz automaticamente em igualdade nas condições de trabalho e de oportunidades. Atualmente, as mulheres já são maioria em 22 das 55 especialidades médicas, mas ainda enfrentam diferenças salariais, menor acesso a cargos de chefia e sub-representação em posições de liderança acadêmica e institucional.

A formação dos médicos 

Outro dado que chama atenção no relatório é o crescimento do número de médicos generalistas. Dos quase 200 mil profissionais ativos no estado, cerca de 40% não possuem título de especialidade, em sua maioria recém-formados que atuam em prontos-atendimentos, plantões e na atenção primária.

De acordo com Mário Scheffer, o cenário expõe uma fragilidade na estrutura de formação dos médicos. A quantidade de vagas em programas de residência não acompanha o volume de profissionais, o que limita o acesso à especialização. 

“É fundamental ampliar a formação especializada e qualificar esses profissionais para que consigam resolver a maioria dos problemas de saúde da população”, avalia o pesquisador.

Os desafios do setor 

Além disso, a distribuição dos profissionais ao redor do estado continua desigual. Nesse caso, os especialistas tendem a se concentrar nos grandes centros urbanos e no setor privado, enquanto o SUS (Sistema Único de Saúde) enfrenta dificuldades com a permanência de médicos em áreas periféricas e no interior.

Segundo o relatório, a grande presença da rede privada na cidade cria uma sobreposição de oferta que nem sempre se traduz em melhoria do atendimento pelo sistema público, aprofundando o desequilíbrio entre os sistemas. 

O estudo projeta que, até 2035, o estado poderá contar com cerca de 340 mil médicos, consolidando São Paulo como o maior polo médico do país. de o desafio, segundo os pesquisadores, será transformar o crescimento numérico, especialmente de mulheres, em avanços que garantam equidade, valorização desses profissionais e melhor distribuição dos serviços de saúde.