Em 2025, o Instituto Minas Programam lançou o relatório “Cavando Nossos Espaços”, uma investigação que mostra a escala da violência contra mulheres negras no ambiente digital brasileiro, conduzida pelas pesquisadoras Bárbara Paes e Ester Borges.
Segundo o estudo, as agressões virtuais não são falhas técnicas ou eventos isolados, mas uma extensão direta do racismo, machismo e capacitismo. A pesquisa utiliza o conceito de “misogynoir”, uma fusão entre racismo e misoginia, para explicar esses ataques.
Essa violência atinge desde figuras públicas até estudantes e profissionais em áreas nas quais sua presença é menor, como os cursos de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), e no ambiente acadêmico.
Os ataques funcionam como um mecanismo de punição. Nesse caso, quando mulheres negras ocupam espaços de poder ou expressam suas opiniões, são tratadas como “invasoras” por desestabilizarem um nível hierárquico já pré estabelecido.
Para isso, são utilizadas práticas como campanhas de difamação, insultos racistas e exposição de dados pessoais. Entre as entrevistadas, houveram relatos de exibição de partes íntimas em entrevistas de emprego e ameaças de agressão física, por exemplo.
O impacto do silenciamento
A hostilidade gera consequências para a saúde mental e a liberdade de expressão dessas mulheres. O relatório mostra que esse tratamento, muitas vezes, causa traumas, depressão e a necessidade de autocensura.
O peso emocional levou muitas delas a tomarem medidas de proteção como abandonar projetos de vida, desistir de carreiras legislativas ou deixar de publicar textos em seus próprios blogs.
Em outros casos mais sérios, elas relatam terem se afastado definitivamente da área de tecnologia, visando proteger não apenas a si mesmas, mas também a segurança de suas famílias.
Resistência e redes de apoio
Mesmo diante de plataformas que muitas vezes as boicotam, o relatório mostra que elas seguem “cavando” brechas na internet para construir conhecimento, política e redes de apoio, que dão acolhimento e validam suas experiências.
Essas redes promovem o chamado “letramento em cuidados digitais”. Através dessa troca de conhecimento e vivências, elas aprendem a reduzir danos e encontram meios para não desistirem de suas carreiras.
Para a construção de um ambiente digital digno, no final o relatório lista as demandas das entrevistadas, que rejeitam a ideia de que a disseminação de ódio possa ser confundida com liberdade de expressão.
Elas cobram a responsabilização dos agressores e, principalmente, das plataformas que permitem a propagação dessas violências, além de combater a conivência das empresas de tecnologia.
O programa
O Minas Programam é uma iniciativa criada em 2015 para promover aprendizado nas áreas de ciências, tecnologia e computação para meninas e mulheres, priorizando negras ou indígenas.
Com todas as atividades gratuitas e ministradas por mulheres, são oferecidos cursos de introdução à programação, oficinas, treinamentos e debates.