Um novo estudo, lançado este mês por pesquisadores de instituições como o ISC (International Science Council) e a InterAcademy Partnership, mostra que as mulheres conquistaram a presença, mas ainda falta o poder em cargos de decisão na área científica.
Hoje, as mulheres ocupam quase um terço do ecossistema de pesquisa global. Segundo dados da Unesco, o salto foi de 29,4% em 2012 para 31,1% em 2022. No entanto, quando analisa-se as cadeiras de decisão, onde se definem orçamentos, normas e prêmios, o cenário ainda é majoritariamente masculino.
Embora estejam mais presentes, a ascensão para as academias nacionais de ciência ainda é lenta. Em 2025, a presença feminina nessas instituições chegou a 19%, o que já é um avanço comparado aos 12% de 2015, mas está longe de atingir a equidade.
Nas uniões científicas internacionais, que organizam congressos e definem os rumos das disciplinas na academia, a média de liderança é maior, chegando a 40%. Contudo, o prestígio, e os prêmios mais altos, continuam concentrados nas mãos de homens, especialmente nas áreas de engenharia e tecnologia.
O mito da “falta de candidatas”
A desculpa de que “não há mulheres qualificadas” não se sustenta mais. O relatório, do qual participaram pesquisadoras como Léa Nacache, da ISC, e Catherine Jami, da CNRS, aponta que o problema é estrutural e sistêmico.
Em 90% das academias, a indicação de novos membros depende de quem já está lá. Em ambientes dominados por homens, a tendência é que o olhar se volte para eles, perpetuando o desequilíbrio por meio de redes de influência.
Além disso, critérios de nomeação pouco transparentes e baseados em “reputação” acabam filtrando candidatas mulheres, independentemente de seu mérito acadêmico, por diversos fatores, como pausas por conta da maternidade ou menor tempo de dedicação.
O custo invisível
O estudo ouviu cerca de 600 cientistas e os relatos mostram as barreiras invisíveis do cotidiano. As mulheres têm 4,5 vezes mais chances de perder eventos científicos cruciais devido a responsabilidades de cuidado doméstico e a probabilidade de uma mulher relatar experiências de assédio ou microagressões no ambiente científico é 2,5 vezes maior que a de um homem.
Mesmo presentes em reuniões, as mulheres relatam sentir que não conseguem participar no mesmo nível de influência que seus colegas homens.
A conclusão do relatório é de que a sub-representação feminina não é por falta de talento, mas um reflexo de uma cultura institucional desenhada por e para homens. Nesse caso, a academia precisa se remodelar para refletir a diversidade da sociedade.
Segundo o estudo, o caminho exige reformas estruturais, orçamentos dedicados à igualdade de gênero e, acima de tudo, que as instituições examinem seus critérios de seleção, tanto para a entrada quanto para ascensão à cargos de maior relevância.