A poeta Orides Fontela (1940-1998) foi anunciada pela Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) como a autora homenageada de sua 24ª edição. O evento, que acontece entre os dias 22 e 26 de julho, tem Rita Palmeira como curadora e dará palco à “poeta mais pobre do Brasil”, como ela mesma se descrevia.
Nascida em São João da Boa Vista, no interior paulista, e filha de um operário analfabeto e de uma operária de fábrica, a poeta limpava escolas para sobreviver enquanto escrevia seus versos.
Sua “descoberta” pela elite intelectual aconteceu nos anos 60 quando o crítico Davi Arrigucci Jr. se deparou com seus poemas e os levou para o seu então orientador Antonio Candido, que a batizou de “nossa Rimbaud” por causa de seu temperamento difícil, em homenagem ao poeta francês.
Mas a vida na capital paulista, para onde se mudou para cursar Filosofia na USP, nunca foi glamourosa. Orides morou de favor, enfrentou despejos e habitou apartamentos minúsculos perto do Minhocão. “Eu posso conseguir fama com a poesia. Só não consigo mudar de classe. Eu nasci proleta e continuo sendo”, disse Orides em entrevista à escritora Marilene Felinto em 1996.
O renascimento de um enigma
Diferente de seus contemporâneos, ela fugia do excesso. Sua poesia é curta, mas ela transformava objetos cotidianos, como um pássaro, uma maçã ou um espelho, em profundas questões existenciais.
Sua obra, embora pequena, teve grande impacto. Livros como Alba, ganhador do Prêmio Jabuti em 1983, e Teia, vencedor do Prêmio APCA Associação Paulista dos Críticos de Arte) em 1996, consolidaram sua posição ao lado de nomes como João Cabral de Melo Netto e Carlos Drummond de Andrade.
A poeta, que morreu em um sanatório em Campos do Jordão, vítima de tuberculose e quase esquecida, retorna agora como destaque na Flip. Para a curadora desta edição, Rita Palmeira, a homenagem à poeta parte do desejo de resgatar sua obra e deslocar o foco de sua vida turbulenta para seus textos.
A homenagem também vem acompanhada do relançamento de toda sua obra pela Editora Hedra esse ano, incluindo a biografia “O Enigma Orides”, de Gustavo de Castro.
Por onde começar a ler Orides?
Se você ainda não conhece a obra da autora, aqui estão três de suas principais trabalhos:
- Helianto (1973): Considerada a obra que define sua estética, o livro aprofunda o diálogo entre a poesia e a filosofia utilizando imagens de luz e natureza para explorar temas universais.
- Alba (1983): Título que rendeu à autora o Prêmio Jabuti, a coletânea é um marco de sua maturidade poética. Os versos focam no nascimento (a “alba”) do pensamento e na investigação da palavra como unidade de sentido.
- Teia (1996): Vencedor do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), o livro marca sua fase final. Nele, Orides trabalha a ideia da interconexão entre os seres e o nada.