Por que as mulheres entregaram performances mais trabalhadas no Lollapalooza?

Enquanto Sabrina Carpenter e Lorde transformam o palco em campos de resistência e estética, os homens ainda possuem o privilégio de apenas terem boas músicas

Reprodução Multishow via Globoplay
Sabrina Carpenter no Lollapalooza 2026 Foto: Reprodução Multishow via Globoplay

O Lollapalooza 2026 será lembrado como a edição em que as mulheres não apenas ocuparam o line-up, mas carregaram o festival nas costas, sendo boa parte das atrações mais memoráveis. No entanto, ao analisarmos as performances, fica claro que a indústria ainda exige que elas sejam basicamente atletas de entretenimento para obter a mesma atenção que um homem recebe por ter, simplesmente, boas músicas.

Escalada como headliner do Palco Budweiser na sexta-feira, 20, Sabrina Carpenter entregou 1h30 de uma performance teatral, com diversas trocas de figurino e até mesmo um gole de expresso martini durante a apresentação.

Ela navegou por hits como Espresso e Juno com uma precisão cirúrgica em meio a cenários que mudavam rapidamente, coreografias sincronizadas e uma estética inspirada nos editoriais da Vogue dos anos 80.

Fato é que grande parte do público ainda a vê como “fútil” ou “apelativa” por conta de suas coreografias e figurinos. Mas foi exatamente essa estética que fez com que ela se diferenciasse dos outros artistas pop e fosse lançada à fama. 

Diferente de artistas masculinos como Lewis Capaldi, que no sábado, 21, se apresentou apenas com seu violão, sem grandes recursos visuais, Sabrina não pode se dar ao luxo de uma apresentação como essa.

Addison Rae e o estigma de futilidade

Para grande parte das mulheres, principalmente as artistas pop, o sucesso é condicionado a uma entrega física e estética exaustiva, no qual o talento vocal e a qualidade das letras são apenas o ponto de partida.

Addison Rae, que se apresentou no palco Samsung no domingo, 22, também foi alvo das mesmas críticas, sendo que sua apresentação foi um dos pontos mais polarizados do festival. 

As diversas coreografias e trocas de figurinos, alinhadas a seu carisma e presença de palco, foram ofuscados pelo uso excessivo de playback, visto como distração para a falta de potência vocal para grande parte do público. 

Lorde e a autenticidade da performance

A aparente “futilidade” de Addison foi logo posta de lado por Lorde, que subiu ao palco em seguida cantando diversos hits de sua carreira e de seu novo álbum ” Virgin”, lançado em 2025. O cenário mudou muito desde 2014, primeira vez que ela se apresentou no Brasil. 

Em 2026, ela se transmutou basicamente para uma intelectual do pop. Lorde utilizou ventiladores, correu em uma esteira durante a apresentação de Supercut e utilizou plataformas secundárias para criar uma conexão com o público.

Ela até arriscou português, enquanto conversava sobre seu amadurecimento e de sua carreira, e “trocou” de figurino ao longo da apresentação, tirando seu cinto e calça à medida que se aprofundava em composições cada vez mais íntimas. 

Então quer dizer que a “distração das performances” não se faz verdadeira, se até uma artista muito ligada ao indie pop, com letras consideradas mais “maduras”, também se preocupa em entregar autenticidade. Por que os homens também não sofrem com essa cobrança então? 

O alicerce da música

Enquanto Lorde foi alocada no palco secundário, o encerramento oficial do domingo ficou com Tyler, The Creator. Tyler é, inegavelmente, um gênio da composição e da produção, e seu show foi tecnicamente impecável. No entanto, a disparidade na “forma” de apresentar é gritante.

Tyler entregou um show excelente baseado em sua energia crua e na força de seu catálogo, entregando autenticidade e interação com o público. Ele não precisou de trocas de figurinos constantes, coreografias exaustivas ou a pressão de manter uma imagem impecável. Para ele e para o público, a música basta. 

Enquanto Chappell Roan e Doechi, outras grandes atrações do festival no sábado, 21, além de letras contagiantes precisam entregar estética, estrutura de palco e figurinos, o privilégio masculino na música ainda reside na liberdade de ser comum.

Como dizia Madonna em seu discurso na Billboard: “Não há regras, se você for um menino”. No Autódromo de Interlagos, elas jogaram o jogo melhor do que ninguém, mas o esforço para vencer ainda é desproporcional.