Projeto capacita mulheres na Mangueira e já protegeu 100 milhões de litros de água

A EcoFábrica converte óleo de cozinha em sabão ecológico, que possui microorganismos que tratam o esgoto, enquanto capacita mulheres da comunidade

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Jéssica Delgado, bióloga por trás da EcoFábrica Foto: Divulgação

Com um ano de atuação na comunidade da Mangueira, no Rio de Janeiro, a EcoFábrica, do Projeto Omìayê, transforma óleo de cozinha usado, um dos poluentes ambientais mais agressivos, em produtos de limpeza. Todo o processo, desde a fabricação até a filtragem do óleo, é realizado por mulheres da própria comunidade.

Com microrganismos com propriedades biorremediadoras, capazes de tratar o esgoto ao entrar em contato com a água, estima-se que o projeto já tenha protegido mais de 100 milhões de litros de água limpa. 

Viabilizado pelo Instituto Singular de Ideias Inovadoras, o projeto nasceu de um projeto acadêmico da UFF (Universidade Federal Fluminense), sob o comando da bióloga Jéssica Delgado.

Inicialmente, a proposta era revitalizar corpos hídricos, como rios e lagoas, que sofriam com a poluição provocada pelo despejo do esgoto. Com os resultados positivos, Jéssica começou a desenvolver um projeto para adaptar essa tecnologia para regiões de maior vulnerabilidade e que tinham que lidar com a baixa, ou praticamente ausente, infraestrutura sanitária. 

A entrada na Mangueira

Sem alternativas convencionais, os moradores são obrigados a conviver com o odor, com vetores e, em muitos casos, com doenças de veiculação hídrica. E esse não é um problema isolado, segundo dados da ANA (Agência Nacional de Águas), cerca de 43% da população não recebe tratamento para o esgoto produzido. 

“Nas favelas, muitas vezes você não consegue passar nem com uma moto nas vielas, quem dirá fazer uma mega infraestrutura de manilhamento, que vem junto com uma área de tratamento de esgoto tradicional”, explica.

A chegada à Mangueira veio nesse contexto, através de uma parceria com a Associação Meninas e Mulheres do Morro, uma ONG que já atuava na comunidade e proporcionou tanto a entrada quanto o contato com as moradoras, que hoje trabalham no projeto.

Como o projeto funciona

A ideia é fornecer um “saneamento circular”, combatendo o problema em duas frentes. A primeira consiste na instalação de estações de tratamento comunitárias, com caixas d’água e galões ao redor do bairro, que gotejam esses microrganismos biorremediadores continuamente na rede de esgoto. 

Ao consumirem a matéria orgânica e a gordura dos dejetos despejados, esses organismos limpam a água e reduzem a emissão de gases tóxicos, combatendo tanto o mau cheiro quanto a proliferação de insetos.

A segunda, que hoje está em processo de patente, é a incorporação desses microrganismos na fórmula de sabões em barra, detergentes e lava-roupas, com uma tecnologia que cria uma microcápsula. 

Elas funcionam como uma “casca de ovo”, que só se rompe quando o morador utiliza o produto com a água. Assim, ao lavar a louça ou a roupa, o morador trata o esgoto diretamente na fonte.

“Quando o morador usa um sabão na sua residência, ela está lavando uma louça enquanto está gerando o esgoto. Então ele já está tratando esse esgoto, porque ao terminar de lavar a roupa e a água para o esgoto, ela já vai com esse produto de tratamento junto”, explica.

Saneamento circular e o impacto no território

Em seu primeiro ano, a fábrica coletou mais de 6.000 litros de óleo de cozinha, resíduo que se outro modo pararia nos ralos ou no lixo, gerando cerca de 6 toneladas de sabão em barra e 2.000 litros de produtos líquidos.

Hoje, a comunidade entrega o óleo usado e recebe os produtos de limpeza gratuitamente, em uma troca de 1 litros de óleo por duas barras de sabão, em uma dinâmica que também despertou a consciência ambiental da população. “Quando você entrega um lava-roupa de 1 L que custaria R$ 30 para ele de graça, você tem aí uma redução de custo no final do mês”, conta.

Estima-se que o projeto já tenha protegido mais de 100 milhões de litros de água limpa. Segundo Jéssica, quando um morador deixa de descartar 1 L de óleo, são 25.000 L de água que deixam de ser contaminadas. 

Os impactos na saúde pública são palpáveis. As taxas de coliformes fecais, bactérias estomacais, que chegavam a ser 800 vezes superiores ao limite tolerado, foram reduzidas para menos da metade em apenas um ano de atuação do projeto.

“Antes a gente passava pela comunidade, não sentia o que a gente sente hoje, que era o cheiro de esgoto, e através aqui do projeto conseguimos inibir bastante o cheiro”, conta Daniele Chaves, 40, uma das colaboradoras do projeto.

Daniele produzindo uma forma de sabão

Capacitação profissional das mulheres

Dani, como é conhecida, atualmente trabalha fabricando mais de 40 formas de sabão por dia ao lado de uma equipe que já conta com 13 mulheres, muitas delas mães que não tiveram a oportunidade de ter acesso ao mercado de trabalho formal. 

“Agora você já tem como administrar o dinheiro melhor, porque já sabe que tem uma renda um pouco maior e pode conquistar mais coisas”, conta Daniele, que antes trabalhava como manicure. 

Todas passaram por um processo de capacitação para poderem atuar em todas as etapas da produção, desde o processo de desenvolvimento do material microbiológico no laboratório, à filtragem do óleo até o produto final.  

“Hoje elas conseguem atuar em qualquer área da fábrica. Se decidirmos abrir uma outra unidade, a ideia é elas ficarem responsáveis e conseguirem gerir a EcoFábrica da Mangueira, assim como as outras”, explica Jéssica.