O retorno de O Morro dos Ventos Uivantes aos cinemas, agora em uma nova adaptação estrelada por Jacob Elordi e Margot Robbie, além de reacender o interesse pelo clássico, desperta o debate sobre a autoria por trás da obra. Com estreia nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, o filme promete atualizar a história de paixão e conflitos de classe que Emily Brontë imortalizou no século 19. Porém, para que essa história chegasse até nós, ela precisou se esconder atrás de um escudo: o nome Ellis Bell.
A estratégia não era uma escolha individual, mas um modo de sobrevivência. Naquela época, uma mulher assinando uma obra que retratava tanta violência e densidade psicológica seria provavelmente renegada ao ostracismo. Ao adotar um nome masculino, Emily garantiu que seu livro fosse julgado por si só, e não pelo seu gênero.
A literatura como território interditado
Durante séculos, a literatura reservou às mulheres o papel de personagens, e quase nunca o de criadoras. Quando escreviam, eram empurradas para o “espaço doméstico”, com temas sentimentais e intimistas, considerados menores pela crítica masculina.
Nesse cenário, o pseudônimo surgia como um passe simbólico, como no caso de Amandine Dupin, que o mundo conheceu como George Sand. Seus romances discutiam política, religião e desejo, temas proibidos às mulheres. E, por mais que tenha sido uma das autoras mais celebradas da época, seu reconhecimento só veio sob o custo do apagamento de sua identidade real.
O dilema das irmãs Brontë: Charlotte, Emily e Anne, que se tornaram os irmãos Currer, Ellis e Acton Bell para fugir do estigma da “escrita feminina”, sintetiza bem esse impasse. Se Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes conseguiram escapar do preconceito inicial, foi porque pareciam ter autoria masculina. Charlotte, inclusive, chegou a admitir em cartas o medo de que a revelação do seu gênero destruísse a recepção crítica de suas obras.
Outra escritora que utilizou do artifício foi Louisa May Alcott. Sob o pseudônimo de A.M Bernard, ela escreveu histórias muito diferentes de “Mulherzinhas”, pela qual ficou conhecida, como os thrillers “Por Trás de uma Máscara”, “A Paixão e o Castigo de Pauline” e “O Fantasma do Abade”.
Das sombras do século 19 à J.K. Rowling
Nesse sentido, visto que o nome feminino carrega, ainda hoje, certas expectativas que moldam a leitura, algumas autoras transformaram o pseudônimo em uma arma política. Esse é o caso da francesa Victoire Leódile Béra, que conseguiu se infiltrar em debates sobre os direitos dos trabalhadores e a educação feminina no século 19 ao adotar o nome André Léo.
Essa barreira, porém, não ficou restrita ao passado. Mesmo no século 21, a neutralização do nome continua sendo uma peça no tabuleiro editorial, sendo o exemplo mais emblemático a J.K. Rowling.
Ao lançar Harry Potter, a editora sugeriu que ela assinasse com suas iniciais para evitar que os meninos rejeitassem um livro escrito por uma mulher. Anos depois, ao migrar para o gênero policial, ela voltou a se “disfarçar”, agora sob a pele de Robert Galbraith.
No Brasil, essa luta também se instalou com Nair de Tefé, caricaturista e primeira-dama, que usava o pseudônimo Rian para publicar sátiras políticas em jornais no início do século 20, em um gênero considerado mais “agressivo” e masculino.
Nos Estados Unidos, essa resistência também foi utilizada por June Tarpé Mills, que assinava apenas como Tarpé para entrar no mercado de quadrinhos. Foi isso que fez com que ela conseguisse criar, em 1941, a Miss Fury, a primeira super-heroína das HQs.
O mistério por trás de Elena Ferrante
Nesse arco histórico, o fenômeno por trás da “Elena Ferrante” traz uma nova camada ao debate. Sua identidade tornou-se alvo de uma investigação frenética nos últimos anos e, ao escolher o anonimato, a escritora italiana abriu a discussão questionando a própria ideia de autoria.
Segundo um artigo publicado no The New York Times, o jornalista Claudio Gatti afirma ter desvendado o mistério, concluindo que a autora se trata de Anita Raja, tradutora italiana e esposa do escritor Domenico Starnone.
A apuração se deu pela análise dos valores pagos à ela pela editora Edizioni e/o e pelo aumento do patrimônio do casal, cruzando com o período que coincide com o sucesso de vendas global dos livros de Ferrante.
Em carta enviada à seus editores antes da publicação do primeiro livro da “Tetralogia Napolitana”, ela defende que o livro não precisa do autor para existir e que a exposição, especialmente no caso de mulheres que escrevem sobre maternidade e violência de gênero, pode reduzir a potência do texto.
“(…) eu acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não tenham qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, vão encontrar cedo ou tarde seus leitores”, escreveu.