Qual é o papel das primeiras-damas?

Da figura silenciosa do lar ao centro do debate público, quais são, afinal, os deveres de um cargo que não existe formalmente

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Agora, com o retorno de Lula à Presidência, a Janja passou a ocupar um espaço mais visível e ativo. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Da imagem de “mãe dos pobres” ao protagonismo midiático em campanhas e governos, ao longo da história, as primeiras-damas ocuparam um lugar ambíguo no poder, mesmo sem terem um cargo formal. No Brasil e em outros países, elas transitaram entre o papel de “companheira do presidente” à atuação direta em causas sociais, culturais e políticas. 

O termo “primeira-dama” em si surgiu nos Estados Unidos no século 19 e se popularizou com a cobertura da imprensa sobre Frances Folsom Cleveland, esposa do então presidente Grover Cleveland. A expressão foi incorporada por diferentes países como uma forma informal, e posteriormente oficializada, de nomear as esposas dos chefes de Estado.

No Brasil, o título nunca veio acompanhado de atribuições legais. Porém, antes mesmo da consolidação do termo no país, Nair de Teffé, esposa de Hermes da Fonseca, foi uma das figuras mais revolucionárias do Palácio do Catete. 

Sob o pseudônimo de “Rian”, ela entrou para a história como uma das primeiras caricaturistas do mundo e escandalizou a classe política ao trazer música popular para o Palácio. Como primeira-dama, Nair influenciou costumes, provocou debates e ocupou espaços que até então pareciam inalcançáveis para as mulheres.

Assistência social como meio de atuação

Contudo, foi só a partir do século 20 que elas passaram a atuar de forma mais visível. Em 1915, Maria Pereira Gomes, esposa do presidente Venceslau Brás, organizou ações para arrecadar recursos destinados às vítimas da seca no Nordeste e presidiu o comitê feminino da Cruz Vermelha durante a gripe espanhola. 

Ali se desenhava o início de um modelo de assistencialismo que marcaria sua atuação nas próximas décadas e se consolidou com Darcy Vargas, mulher de Getúlio Vargas. Em 1942, ela fundou a LBA (Legião Brasileira de Assistência),  criada inicialmente para apoiar famílias de soldados da Segunda Guerra Mundial.

A partir de Darcy, quase todas as primeiras-damas passaram pela presidência da LBA, com a participação de figuras importantes como Sarah Kubitschek e Maria Thereza Goulart, até que a instituição entrou em crise nos anos 1990, após denúncias de corrupção envolvendo a gestão de Rosane Collor. 

A ruptura com o assistencialismo

Em 1995, Ruth Cardoso, então primeira-dama e esposa de Fernando Henrique Cardoso, deu fim a esse modelo, argumentando que as políticas sociais deveriam ser responsabilidade do Estado, não de iniciativas pessoais.

Antropóloga e professora universitária, Ruth Cardoso deslocou o debate da caridade para a formulação de políticas públicas ao presidir o programa Comunidade Solidária. Ela trabalhou estruturando programas e iniciativas que mais tarde dariam origem ao Bolsa Família. 

Ruth, uma das três primeiras-damas com ensino superior, também foi uma das poucas a assumir publicamente posições progressistas, defender movimentos sociais e pautar a participação feminina na política. 

As primeiras-damas do século 21

Nos governos mais recentes, o papel delas voltou ao centro do debate. Marisa Letícia Lula da Silva, primeira-dama entre 2003 e 2010 nos dois primeiros mandatos do presidente Lula, foi uma militante histórica do movimento sindical e do Partido dos Trabalhadores.

Participante ativa das lutas políticas durante a ditadura militar, ela teve um papel central na organização das mulheres dentro do sindicalismo e, como primeira-dama, manteve uma atuação constante em agendas ligadas à inclusão e aos direitos das mulheres. 

Sua sucessora, Marcela Temer, manteve sua atuação associada a projetos voltados à infância, tendo uma participação fora dos holofotes. Já Michelle Bolsonaro assumiu maior visibilidade, tornando-se a primeira a discursar em uma posse presidencial e se engajando em pautas governamentais, além de ser uma presença constante em agendas religiosas.

Durante o governo Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro teve papel central na tentativa de aproximação do presidente com o eleitorado feminino e evangélico, tornando-se uma figura simbólica de sua campanha. 

Ao mesmo tempo, suas declarações públicas reforçaram uma visão tradicional sobre o papel da mulher, sendo defensora de uma “submissão saudável” ao marido, conforme declaração recente.

Agora, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, Rosângela Lula da Silva, a Janja, passou a ocupar um espaço mais visível e ativo. Socióloga, com experiência em gestão pública e sustentabilidade, ela teve protagonismo desde a campanha eleitoral. 

Ela participou da organização da posse e passou a se envolver diretamente em agendas ligadas à cultura, às mulheres e à segurança alimentar. Sendo, inclusive, alvo frequente de críticas justamente pelo uso de recursos públicos e de sua atuação no governo.  

Sem cargo, mas no centro do poder

Entre a imagem da mulher “recatada” e a figura excessivamente exposta, a verdade é que poucas delas escaparam do julgamento público sobre sua aparência, comportamento e postura. 

Durante décadas, esperava-se dessas mulheres discrição e distanciamento da política sendo, quando saíam desse papel, alvo de críticas. Ainda assim, muitas exerceram grande influência sobre decisões de governo, mesmo que de forma indireta e longe dos holofotes. 

Em outros países, esse protagonismo também se fez presente. Eva Perón foi uma figura importante para a conquista do voto feminino na Argentina, Michelle Obama usou sua visibilidade para abrir debates sobre educação, alimentação e questões raciais e Hillary Clinton transformou esse papel em trampolim para uma carreira política. 

Em comum, todas elas revelam a mesma contradição: mulheres sem mandato formal, mas com enorme peso simbólico. Em alguns momentos, mantidas à sombra, em outros, colocadas sob holofotes e escrutínio público, mas nunca à margem da política.