Quem é Luana Ozemela, executiva que discute desigualdade dentro do iFood

Chief Sustainability Officer do iFood, a economista fala sobre desigualdade, economia digital e os desafios de gerar impacto social em uma das maiores plataformas do país

TBS Estúdio
Luana Ozemela, Chief of Sustentability do iFood Foto: TBS Estúdio

À frente da área de sustentabilidade do iFood, Luana Ozemela ocupa hoje um dos cargos mais estratégicos do debate contemporâneo sobre impacto social no setor privado. Chief Sustainability Officer da empresa, ela atua na interseção entre tecnologia, inclusão econômica e transição climática em um dos maiores ecossistemas digitais do país.

A trajetória que a levou até ali começou muito antes do mundo corporativo. Economista de formação, Luana transitou por organizações sociais, empresas de tecnologia e iniciativas internacionais dedicadas ao debate sobre desigualdade e inclusão econômica. Em comum, está uma pergunta que a acompanha desde a adolescência: como transformar estruturas que produzem exclusão.

“Meus pais sempre tiveram essa ânsia de mudar as estruturas de opressão ao redor deles”, conta. “Desde injustiça no aumento do preço do gás até injustiça racial, tudo era algo que a gente não deveria aceitar”, conta.

Luana nasceu em Porto Alegre e cresceu em um ambiente familiar profundamente politizado. Filha de um estudante de engenharia e de uma ativista do movimento negro, conviveu desde cedo com discussões sobre desigualdade social e racial em um período em que esses temas ainda eram pouco debatidos publicamente.

“Enquanto ao meu redor muita gente simplesmente aceitava as coisas como eram, meus pais não aceitavam. Eles discutiam, questionavam, provocavam desconforto. Isso foi muito formador para mim.”

Esse ambiente despertou cedo seu interesse por liderança e mobilização social. Ainda adolescente, passou a atuar em organizações comunitárias e movimentos juvenis. “Comecei muito cedo liderando iniciativas comunitárias. Na igreja, por exemplo, eu já era líder de jovens com 12 anos. Sempre tive muito essa relação com organização social, com mobilização.”

Contudo, um episódio específico marcaria profundamente sua visão sobre desigualdade e acesso à educação. Determinada a aprender inglês para estudar no exterior, Luana e a mãe passaram uma noite inteira na fila para conseguir vaga em um curso gratuito. “Lembro de dormir naquela fila no frio e me perguntar: por que é tão difícil para alguém que quer estudar e ter uma carreira digna acessar educação de qualidade? Por que eu tenho que passar por isso?”, diz.

A experiência teve impacto profundo. “Ali eu pensei muito sobre o que significa acesso. Eu senti na pele o desdém, o que é estar naquele lugar. E pensei que educação deveria ser um direito universal.” A partir dali, a ideia de trabalhar para transformar desigualdades estruturais começou a se consolidar.

Durante a juventude, Luana também participou ativamente do movimento juvenil negro no Rio Grande do Sul, organizando mobilizações em defesa das políticas de cotas raciais anos antes de sua implementação no Brasil.
Foi nesse período que um novo episódio mudaria o rumo de sua carreira. Após uma passeata, ela leu no jornal um artigo contrário às cotas raciais, escrito a partir de argumentos econômicos. “Falava de equilíbrio geral da economia, de impacto econômico… e eu não entendi absolutamente nada.”

A reação foi imediata. “Eu pensei: essas são as pessoas que estão ditando políticas que impactam a nossa vida e eu não consigo sequer entender o que elas estão dizendo. Foi ali que eu decidi estudar economia”, conta. Para Luana, compreender os instrumentos técnicos que estruturam políticas públicas era essencial para disputar o debate em pé de igualdade.

Entrando no setor de tecnologia

Antes de seguir integralmente para a economia e para o campo do impacto social, Luana iniciou sua trajetória profissional no setor de tecnologia. Formada em economia e com formação técnica em tecnologia da informação, começou a trabalhar ainda jovem. Durante cerca de oito anos atuou na HP, onde construiu experiência no ambiente corporativo. “Eu cresci bastante dentro da empresa. Mas nunca tive a convicção de que aquilo seria o meu destino final. Era onde estavam as oportunidades naquele momento”, conta.

Mesmo naquele período, porém, a preocupação com desigualdade e inclusão econômica seguia presente. O ambiente corporativo lhe ofereceu experiência em gestão e tecnologia, mas as perguntas que a acompanhavam desde a juventude continuavam voltadas para o impacto social. Aos poucos, a carreira passou a se orientar cada vez mais para iniciativas e projetos ligados a desenvolvimento econômico, inovação e inclusão.

Hoje, no iFood, esse debate ocorre em grande escala. Seu desafio é pensar como uma plataforma que organiza milhões de transações por dia pode gerar impacto social positivo sem ignorar as tensões inerentes a esse modelo de negócio. Entre elas está o debate sobre o trabalho em plataformas digitais, frequentemente associado à precarização.

Para Luana, a discussão precisa ser analisada com mais nuance do que costuma aparecer no debate público. Segundo ela, o modelo de plataformas reúne realidades diferentes e não pode ser reduzido a uma única interpretação. Ao mesmo tempo em que levanta questões legítimas sobre proteção social e condições de trabalho, também abriu novas possibilidades de geração de renda e de inserção econômica para milhões de pessoas.

No caso do iFood, diz, o ecossistema envolve não apenas entregadores, mas também pequenos restaurantes e empreendedores que passaram a acessar consumidores em escala nacional por meio da tecnologia. “Quando a gente fala de plataformas, é importante olhar para a complexidade do fenômeno”, afirma. “Existe um conjunto de pessoas que encontra nesse modelo uma forma de complementar renda, empreender ou acessar oportunidades que antes simplesmente não existiam.”

Esse olhar também se aplica aos restaurantes parceiros da plataforma, muitos deles pequenos empreendimentos familiares que passaram a acessar mercados maiores por meio da tecnologia.

Sustentabilidade e representatividade

Outro eixo central do trabalho da executiva é a agenda climática. Em plataformas de delivery, o impacto ambiental está diretamente ligado à logística urbana e à chamada “última milha”, a etapa final de entrega. Isso envolve discutir desde eficiência logística até a adoção de veículos menos poluentes e novas soluções de mobilidade.

Segundo ela, plataformas digitais têm potencial para acelerar transformações nesse campo. “Se a gente não fizer isso de forma intencional, a tecnologia simplesmente amplifica as desigualdades que já existem.”

Luana também reforça a importância da representatividade em espaços de liderança. Para ela, a presença de mulheres negras em posições estratégicas não é apenas simbólica. “Quando você muda quem está nas mesas de decisão, você muda as perguntas que são feitas.”

Essa perspectiva acompanha sua atuação tanto no setor privado quanto em fóruns internacionais. Para ela, o avanço tecnológico precisa vir acompanhado de escolhas institucionais capazes de ampliar oportunidades. Caso contrário, afirma, a digitalização da economia tende apenas a reorganizar desigualdades que já existem. “Tecnologia por si só não resolve problemas sociais. Ela pode ampliar oportunidades, mas também pode ampliar distâncias se a gente não olhar para isso de forma intencional”, diz.