Relatório expõe a dificuldade de adaptação das empresas após a maternidade

Pesquisa mostra que as mulheres seguem tendo ambição, mas enfrentam estruturas de trabalho que ignoram esse momento de transição

Envato
97,5% afirmam que permaneceriam mais tempo em uma empresa que realmente apoiasse a maternidade. Foto: Envato

Por décadas, a conciliação entre maternidade e carreira foi tratada como um desafio individual. Porém, segundo o relatório “O Futuro da Maternidade no Trabalho 2026”, as mães não estão menos comprometidas com o trabalho A falha está nos sistemas atuais, que ainda se baseiam em uma lógica que ignora as mudanças trazidas por esse momento.

O estudo ouviu quase 500 mulheres que conciliam carreira e filhos e revela que 97,5% afirmam que permaneceriam mais tempo em uma empresa que realmente apoiasse a maternidade no trabalho. Ainda assim, cerca de 40% relatam terem deixado seus empregos após o retorno da licença-maternidade, muitas vezes no primeiro ano, por falta de suporte.

Para a maioria das entrevistadas, o retorno não é tão simples. O período é marcado pela exaustão física, privação de sono, demandas emocionais do pós-parto e a reorganização da rotina familiar, que se somam a ambientes profissionais que esperam que elas mantenham o mesmo desempenho de forma imediata, como se nada tivesse mudado.

Quanto à saúde mental, 50% relataram sintomas de depressão ou ansiedade no pós-parto, mas apenas 35% se sentem seguras para discutir a respeito de necessidades familiares com os gestores ou o RH. 

Falta de apoio estrutural 

Apenas 22% das mães relataram ter um plano estruturado de reentrada nas empresas e 77% disseram sentir pressão para performar como se não tivessem filhos. O resultado é um cenário em que esse momento de transição e as dificuldades são inviabilizados.

Nesse sentido, segundo o relatório, a experiência de retorno depende menos de discursos institucionais e mais de fatores concretos, como o desenho da agenda, flexibilidade real e preparo da liderança. Para 68% das participantes, o gestor direto e a cultura da empresa são os elementos que mais influenciam se o retorno será sustentável ou não.

Questões práticas como horários incompatíveis com a amamentação, ausência de pausas, reuniões consecutivas e a dificuldade de acessar apoio à saúde mental no pós-parto, aparecem como pontos de desgaste. Elas relatam que, embora existam proteções legais em muitos países, elas raramente são implementadas no dia a dia.

O estudo mostra ainda que quase 30% das mulheres que deixam o emprego saem nos primeiros três meses, e 65% antes de completar um ano. No entanto, a maioria não abandona o mercado de trabalho: 60% migram para outras empresas e 40% passam a empreender.

A ambição não desaparece, mas muda de forma

Segundo o relatório, a maternidade não reduz a ambição dessas mulheres. Cerca de 89% das entrevistadas afirmam que a experiência alterou a forma como enxergam o sucesso e a carreira. Elas relatam maior seletividade e passam a avaliar de forma mais criteriosa onde investem seu tempo, energia e disponibilidade.

Nesse caso, o relatório aponta que 76% das mães acreditam ser líderes melhores após a maternidade, mas, em contraponto, apenas um terço sente ter acesso igual a promoções em comparação a seus colegas sem filhos.

Entre todas as variáveis analisadas, a flexibilidade apareceu como o principal fator de retenção dessas profissionais. Para 63% das entrevistadas, redesenhar os horários, ritmo, metas e expectativas seria a mudança mais eficaz que as empresas podem incorporar. 

Dentre as possíveis ações, estão tornar o apoio a amamentação/extração de leite explícito e operacional, criar planos de retorno documentados que permitam uma plano de aceleração gradual nos primeiros 90 dias e normalizar a flexibilidade (horários core flex e ferramentas assíncronas), em vez de tratá-la como exceção.