Para muitas mulheres, escolher a roupa ideal para correr ou pedalar é um dilema que pode resultar desde um desconforto durante os treinos à assaduras e machucados. Para Renata Mesquita, 36, esse se tornou o mote principal para a criação da Vimm, marca de roupas esportivas pensada justamente para que as mulheres possam praticar esportes sem o incômodo da calcinha.
Paulistana formada pela ESPM, Renata já havia trilhado um caminho no universo digital, tendo vivido o “boom” do e-commerce brasileiro em nomes como OQVestir e Farfetch. Lá, trabalhou desde o planejamento de compras à estratégias de marketing e vendas, sendo responsável pela implementação do primeiro programa de parceria com influenciadoras.
Sua veia empreendedora, no entanto, esteve presente desde cedo. Ainda na faculdade, teve uma marca de roupas ao lado de duas amigas e aprendeu, na prática, a gerenciar um negócio e a, literalmente, carregar rolos de tecido no carro. A marca durou pouco tempo, mas foi o pontapé inicial para o que viria a se tornar a Vimm anos depois.
Com experiência no setor de moda e no gerenciamento de grandes marcas, o período no qual trabalhou no marketing da Holistics, empresa de produtos de bem-estar, fez com que também tivesse contato direto com uma startup e visse a sua estruturação e crescimento de perto.
Presente desde o início da operação, ela viu o faturamento saltar de R$ 50 mil para R$ 1 milhão durante a pandemia, chegando a gerir um time de oito pessoas. “É legal pegar uma empresa assim desde o comecinho, porque tudo o que você faz alavanca muito”, recorda.
O estalo para a criação da marca
Após quatro anos na empresa, Renata decidiu tirar um período sabático em 2023 e viajar pela Europa. O que seriam dois meses se transformaram em um ano, no qual passou por países como Londres e Espanha conciliando com trabalhos de consultoria.
Coincidentemente, nesse período ela tinha começado a se aventurar no universo esportivo e se preparava para participar do primeiro (meio) Ironman. Assim, ela percebeu que, enquanto o ciclismo oferecia roupas com forros protetores, o universo da corrida ainda ignorava um de seus principais incômodos: ter que usar calcinha.
Conversando com outras atletas, ela percebeu a recorrência dessa pauta, junto ao desconforto com a costura das roupas e problemas com assaduras. “Eu fui pra essa viagem com a certeza de que ia achar uma bermuda para resolver esse problema, mas não encontrei”, conta.
Ao observar o surgimento de marcas independentes e tecnológicas na Europa e nos EUA, mas nenhuma com esse mote, Renata voltou ao Brasil decidida a criar o próprio produto. Foram oito meses de testes e inúmeras amostras para chegar a um forro que garantisse absorção, impermeabilização e, acima de tudo, não incomodasse tanto física quanto estéticamente.
“O tirar a calcinha é para ser zero tabu, sexual, vergonhoso ou tipo qualquer coisa. É tudo menos isso. É uma questão de liberdade, estar mais confortável e também poder performar melhor”, pontua.
A quebra do tabu
Por ser um nicho ainda pouco explorado, para quebrar a desconfiança inicial quanto à higiene, a divulgação e lançamento contaram com a validação de especialistas durante todo o processo. “Trouxemos médicas para embasar tudo o que estava sendo apresentado. Isso gerou uma curiosidade e uma vontade de experimentar muito maior”, relembra.
Lançada com investimento próprio de cerca de R$ 50 mil e um lote inicial de 300 bermudas, diferente do mercado tradicional, a estratégia desde o começo foi fugir de coleções sazonais. “O produto tem que ser o seu favorito do armário. Se, na hora de treinar, você sempre escolher a Vimm, é porque atingimos nosso objetivo”, conta.
O foco está no desenvolvimento de produtos únicos, que vão evoluindo com o feedback e as necessidades das clientes. Atualmente, o portfólio já conta com dois comprimentos de bermudas, um top e uma camiseta com top embutido.
Todos foram desenvolvidos pensando em solucionar algum desconforto. Os tops, por exemplo, não possuem elásticos embutidos no tórax, justamente para evitar as temidas assaduras de contato, e as bermudas possuem bolsos acoplados para facilitar os treinos na rua.
Uma marca de mulheres para mulheres
Para garantir esse cuidado técnico, Renata faz questão de que toda a cadeia do negócio seja feminina, desde a fábrica que produz as peças e a empresa responsável pela logística até as fotógrafas, com um olhar feminino na construção, confecção e divulgação do produto. “A Vimm é feita para mulheres e ela é realmente feita por mulheres e por mulheres atletas”, destaca.
Prestes a enfrentar seu primeiro Iron Man Full em maio, um desafio que engloba 3.800m de natação, 180km de ciclismo e uma maratona de 42km, Renata também se prepara para a expansão do portfólio.
Entre as próximas novidades estão as novas versões dos tops com bolsos utilitários e uma collab com a Volta Cycling para a criação de um macaquinho de triathlon. “No triatlo as meninas se machucam muito, têm muita assadura. É importante termos esse lugar feminino de acolhimento e de trazer mais mulheres para esse mundo”, acrescenta.