Turismo feminino cresce, com um aumento de 30% nas buscas online

Agências de viagens e órgãos públicos buscam tornar a experiência de viajantes solos mais segura em meio a ascensão de destinos como China e Uruguai

Divulgação/ Woman Trip
Clientes da Woman Trip em viagem ao Egito, diante da Grande Esfinge de Gizé. Foto: Divulgação/ Woman Trip

O mercado de turismo focado em mulheres deixou de ser um nicho para se consolidar como um movimento global, com as buscas mundiais por “viagens solo para mulheres” registrando um salto de 30% nos últimos anos. 

No Brasil, essa onda também ganhou força recentemente. Quatro em cada dez brasileiras já se aventuraram sozinhas, segundo a pesquisa “Mulheres que Viajam Sozinhas”, realizada pelo MTur (Ministério do Turismo) em parceria com a Unesco.

“A gente tem todo o direito de ocupar o espaço público com nossos corpos, de circular nesse mundo e viajar com segurança”, diz Dandara Degon, fundadora da Woman Trip, agência que atua há 14 anos montando roteiros exclusivamente para mulheres. 

O perfil das viajantes

A pesquisa do MTur revela que o maior grupo têm entre 35 e 44 anos (34,6%), uma fase da vida que costuma unir estabilidade financeira e um desejo de conhecer novos lugares. A pesquisa ainda aponta que 67,7% das mulheres que viajam sozinhas não têm filhos e, entre as mães, 77,2% já viajaram acompanhadas deles. 

Mas o que as move? Segundo o estudo, lazer (72,6%), independência e liberdade (65,1%) e autoconhecimento (41,4%) são os principais motores por trás das viagens. Quanto aos roteiros, as brasileiras buscam por cultura (68,3%) e pelo contato com a natureza no ecoturismo (64,2%). 

No entanto, para Dandara, o destino é apenas o palco para as conexões que são formadas, principalmente com outras mulheres, que também compartilham vivências e momentos. “O mais importante naquela viagem é a conversa dentro do carro, no restaurante”, ressalta. 

A insegurança como a principal barreira

Apesar da vontade de explorar, o medo ainda dita a escolha dos destinos e até se vão ou não viajar. 62,1% das brasileiras já desistiram de uma viagem por falta de segurança, e 60,6% relatam ter passado por situações de risco ou desconforto durante viagens solo.

Dandara pontua que o planejamento ainda exige camadas de cuidado que os homens raramente precisam considerar. “Antes mesmo de dizer ‘eu quero ir’, eu tenho que perguntar: é seguro? Posso usar essa roupa? A localização do hotel é confiável?”, pontua.

No cenário institucional, políticas públicas também tentam correr atrás dessa demanda. O guia produzido recentemente pelo MTur  destaca avanços como a Lei nº 14.786, que tornou obrigatório o protocolo “Não é Não” em bares e casas noturnas. 

Destinos mais procurados 

Na hora de escolher o próximo destino, a segurança ainda é o filtro principal. De acordo com o ranking da Berkshire Hathaway Travel Protection (BHTP) e o Women, Peace and Security Index (WPS Index), os campeões em bem-estar feminino ainda são Países Baixos, Islândia, Noruega, Suíça e Áustria. 

Porém, destinos como Costa Rica, Estônia, Vietnã e Uruguai, que combinam baixa criminalidade com uma cultura mais aberta à estrangeiros, também estão em crescimento. A Costa Rica, por exemplo, subiu da 60ª para a 34° posição no WPS, assim como o Uruguai, que passou da 59ª para a 35ª colocação.

Dandara antecipa que a Ásia é a próxima fronteira a ser cruzada, com Japão, Coreia do Sul, China e Tailândia liderando uma “orientalização” do desejo das viajantes. Além disso, o olhar para a América do Sul (Chile, Colômbia e Peru) retorna com força total.

“Agora falamos muito sobre a questão de nos descobrimos latinos. As pessoas voltam a buscar esses destinos, inclusive com um outro olhar. Às vezes a pessoa já até conhecia, mas volta e realiza aquela viagem novamente para vivenciar a ‘latinidade’”, conta.

O Brasil em foco

Por mais que o turismo internacional no Brasil viva um momento recorde, com 9,3 milhões de visitantes estrangeiros em 2025, um aumento de 37,1% em relação ao ano anterior, esse número vêm em um contexto de números recordes de violência contra mulheres.

Pesquisas indicam que mais de 21 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão nos últimos 12 meses. Para Dandara, um ponto essencial do setor passa a ser garantir que as mulheres possam ir e vir com respeito. 

 “É importante divulgarmos o Brasil como um destino seguro para mulheres. É importante conseguirmos mostrar que é um lugar que as mulheres podem ir, ser respeitadas, se divertir e voltar em segurança”, pontua.

Por aqui, os destinos favoritos das viajantes incluem o Jalapão (TO), os Lençóis Maranhenses (MA) e cidades litorâneas como Maceió, Porto de Galinhas e Trancoso. “Preconceitos só caem quando a gente conhece o outro. Ao ver outras mulheres fazendo, eu ganho coragem para fazer também”, diz.