Apesar de ter crescido entre motores na oficina da família, o setor automotivo parecia um universo distante para Vittória Gabriela. Anos depois, ela não apenas decidiu mergulhar, como desafiar a quase hegemonia masculina da área ao fundar o ‘Dona do Meu Destino’, iniciativa que faturou R$ 600 mil em 2025, traduzindo, de forma acessível, as tecnicidades deste mundo às mulheres.
A virada começou aos 18 anos, quando ela decidiu trocar Goiânia pela capital federal para estudar Engenharia Aeroespacial na UnB (Universidade de Brasília), e se viu sem a rede de apoio familiar e totalmente dependente para lidar com os problemas de seu carro. “Eu dirigia, mas não entendia nada. Quando acontecia qualquer coisa, eu ligava para o meu pai desesperada e ele resolvia”, relembra.
O incômodo começou a crescer ao observar as amigas, que constantemente eram vítimas de orçamentos inflacionados nas oficinas, justamente pela falta de conhecimento técnico. Com isso em mente, em 2019, enquanto participava de um projeto de Fórmula Elétrico na faculdade, Vittória sugeriu que produzissem um evento de mecânica básica para o Dia da Mulher como forma de arrecadar fundos.
A ideia, recebida com ceticismo por seus colegas, foi o oposto do previsto. “Eles diziam que as mulheres não sabiam porque não queriam aprender e que ninguém iria”, diz. Foram 400 inscrições e 200 mulheres reunidas no Parque da Cidade, em Brasília, para aprender tarefas básicas como trocar pneus e checar o óleo.
No ano seguinte, o evento saltou para 1.600 inscritos e ficou claro que havia uma grande demanda por conhecimento, e que a insegurança das mulheres no trânsito não seria resolvida com apenas um evento anual.
O boom das redes sociais
A pandemia em 2020 foi o divisor de águas do projeto. Vittória retornou a Goiânia, trancou a faculdade e decidiu se matricular em um tecnólogo de mecânica, onde era a única mulher em uma escola com centenas de alunos.
Enquanto trabalhava como mecânica na oficina e revendedora de sua família, ela mantinha uma página nas redes sociais, criada para compartilhar dicas básicas de cuidados, como calibragem, identificação de luzes do painel e consumo de combustível. “Não sou a militante que vai falar que temos que trocar o pneu, mas temos que saber. Porque, se não sabemos, ficamos muito refém, então é pela nossa própria segurança”, diz.
A grande explosão veio em abril de 2021 justamente com um vídeo de Vittória trocando um pneu, que viralizou no TikTok e no Reels e, em apenas um mês, o perfil saltou de 5 mil para 80 mil seguidores. Hoje, a comunidade ultrapassa 800 mil seguidores, com um público composto por 92% de mulheres.
A monetização começou com um curso online de mecânica básica, que rendeu R$ 13 mil no lançamento, valor que superava o que ela ganhava em um ano. “Eu entendi que o Dona tinha que ser uma empresa e que tinha que se financiar. Não é errado as pessoas pagarem a gente”, reflete.
A expansão do negócio
Em um país onde 36,2% dos condutores habilitados são mulheres, o Dona se tornou uma vitrine disputada por grandes marcas, como Petrobras, Audi, Nissan e Hyundai. E, em 2025, Vittória conquistou um faturamento anual de mais de R$ 600 mil, derivado principalmente dessas parcerias.
Mas ela quer ir além das redes sociais. O projeto mais recente é o lançamento de um aplicativo de gestão e manutenção dos veículos, já previsto para o próximo mês, com interface inspirada nos aplicativos de ciclo mestrual. “As peças do carro demoram anos para serem trocadas e a gente esquece. O aplicativo vai funcionar como o controle do ciclo: você cadastra a manutenção e ele te avisa o que precisa ser revisado, explicando o porquê”, detalha.
Além do aplicativo, Vittória planeja o lançamento de um livro infográfico em setembro, com conceitos básicos, e mantém o objetivo de abrir uma oficina mecânica voltada exclusivamente para mulheres. “Eu identifiquei que as mulheres têm dificuldade com carro. Isso não vai mudar daqui 10 anos, não é algo tão rápido assim. Então eu posso migrar para outra coisa, posso ter uma oficina de carro, uma revendedora, posso ter várias coisas que o mercado é ainda assim muito amplo”, conta.